Nu, de botas, Antonio Prata


Título: Nu, de botas

Autor: Antonio Prata

Editora: Companhia das Letras

Páginas: 144 p.

Ano: 2013

Formato da leitura: digital

ResumoEm Nu, de botas, Antonio Prata revisita as passagens mais marcantes de sua infância. As memórias são iluminações sobre os primeiros anos de vida do autor, narradas com a precisão e o humor a que seus milhares de leitores já se habituaram na Folha de S. Paulo, jornal em que Prata escreve semanalmente desde 2010. Aos 36 anos, Prata é o cronista de maior destaque de sua geração e um dos maiores do país. São de sua lavra alguns bordões que já se tornaram populares – como “meio intelectual, meio de esquerda”, título de seu livro anterior e de um de seus textos mais célebres – ,bem como algumas das passagens mais bem-humoradas da novela global Avenida Brasil, em que atuou como colaborador de João Emanuel Carneiro. Prata também é um dos integrantes da edição Os melhores jovens escritores brasileiros, da revista inglesa Granta. As primeiras lembranças no quintal de casa, os amigos da vila, as férias na praia, o divórcio dos pais, o cometa Halley, Bozo e os desenhos animados da tevê, a primeira paixão, o sexo descoberto nas revistas pornográficas – toda a educação sentimental de um paulistano de classe média nascido nos anos 1970 aparece em Nu, de botas. O que chama a atenção, contudo, é a peculiaridade do olhar. Os textos não são memórias do adulto que olha para trás e revê sua trajetória com nostalgia ou distanciamento. Ao contrário, o autor retrocede ao ponto de vista da criança, que se espanta com o mundo e a ele confere um sentido muito particular – cômico, misterioso, lírico, encantado.

Opinião: Quem tem idade semelhante a minha ou superior, ou mora em cidade bem pequena, talvez se identifique mais depressa.

Época em que criança brincava na rua.
Em que a tecnologia máxima era o videocassete.
Em que revista pornô não só era o único meio de contato visual das crianças com pelos pubianos, como era moeda de troca e sinal de status – hoje as pessoas só precisam clicar.

Então não teve como não soltar sonoras gargalhadas, nem evitar de sentir vergonha alheia – com força. Dele e de mim mesma, obviamente.

Para você entender o quão longe vão as reflexões provocadas pelo texto, anotei algumas enquanto ia lendo. Ei-las:

1. quando liguei pro Programa do Hugo, que passava na CNT – e levei a maior bronca DO MUNDO, porque era caro pra xuxu – e olha que eu nem consegui jogar, só fiquei na fila de espera

2. quando eu jurava que era a força do meu pensamento que fazia que os sinais de trânsito ficassem verdes

3. quando eu queria porque queria saber o que aquelas mulheres superemperequetadas faziam no centro da cidade, desfilando para lá e para cá, no sol de meio dia – minha mãe não queria me dizer, falava que estavam passeando… mas que não era para eu falar com elas

4. quando minha mãe falou que meu gato havia fugido, e que o tinham visto com uma “namorada” em outro lugar – anos depois, quando me contaram como ele realmente tinha sido encontrado, eu chorei como se tivesse acabado de acontecer ¬¬”

5. quando matei minha mãe de vergonha, passando sob a perna amputada (entre o coto de perna e a muleta, sabe?) do “seu Valdir perneta”, que morava no final da minha rua

E fico por aqui para não me alongar muito. Como o próprio resumo da editora comenta (e muito bem, por sinal, muito amor pela “Companhia”), o texto tem escrita bastante fluída, e o ponto de vista do menino nos faz relembrar coisas que já estavam soterradas pela responsabilidade da vida adulta.

Recomendo, muitíssimo! Mas fica a dica: quem já nasceu nas eras de celular, quem já cresceu agarrado no playstation e podendo acessar pornografia na internet, provavelmente irá se divertir bem menos do que eu 😉

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