Um breve comentário sobre o dinheiro gasto em livros

A Barbara do The room 1408 (bj, sua linda!) me perguntou se podia postar minha reflexão sobre os book haul no blog dela. Eu fiquei agradavelmente surpresa, e nem foi uma surpresa egóica (um pouquinho, vai 😉 ). É que foi um pensamento muito sincero, mas que não é lá muito popular, e nem vem sendo compartilhado entre os coleguinhas.
Ainda estou escrevendo um post maior sobre isso – porque encheu minha cabeça de caraminholas, e porque o blog é meu para eu falar o que eu quiser sobre minha opinião 😛  Você pode compartilhar, ou não. Você pode me achar uma [sinônimo para parte íntima masculina de formato ovalar]. Você pode discordar de mim, e não vamos brigar por isso.
Mas,

Apenas a título de conhecimento e para pensar, um trecho de um dos textos que mudaram minha vida (não só esse trechinho, mas o texto inteiro). Eu tive que reler muito, muito isso, durante anos, para aceitar que sim, as coisas escritas nesse texto, para mim, são verdades.

Ei-lo (os sublinhados são meus):

11. — Parei de comprar livros

  Como a maioria das pessoas meio intelectuais meio de esquerda do eixo Morumbi-Leblon, eu também adorava passar na Travessa da Vila mais próxima e gastar centenas de reais em lançamentos — todos com belíssimo projeto gráfico! Então, expunha orgulhosamente meus troféus na estante ou na mesinha de centro… e, no máximo, lia um ou outro.
  Mas é obsceno abrir mão de um dinheiro que faria falta em troca de livros que provavelmente não iria ler.
  Passei então a comprar um livro de cada vez. E só se ele for passar na frente de todos os outros da minha lista. Só se for pra ser lido agora, assim que sair da livraria, hoje mesmo.
  Se é pra comprar a linda, divina, chiquerrérrima nova edição de Moby Dick da Cosac Naify por cem reais só para colocá-la na minha pilha de leituras futuras, entre A Montanha Mágica e Em Busca do Tempo Perdido, é melhor simplesmente colocar uma nota de cinquenta em cada um desses dois livros. Pelo menos, o dinheiro fica ali, líquido e disponível; pode ser usado como marcador de página; e, se e quando eu finalmente tiver aquela vontade súbita de ler agora, sempre posso pegar as duas notas e correr até a livraria mais próxima.
  Não faz sentido comprar hoje um livro que vou acabar lendo apenas daqui a dois anos. Melhor guardar o dinheiro e comprar o livro daqui a dois anos, no dia em que for lê-lo.
[…]
  Além disso, existem diversas bibliotecas públicas e universitárias na minha cidade, muitas das quais deixam até retirar livros.
  Por exemplo, a PUC-RJ permite que ex-alunos peguem livros emprestados de sua excelente biblioteca se forem membros da Associação de Ex-Alunos — cuja anuidade foi o dinheiro que mais rápido se pagou em toda a minha vida. Durante muitos anos, a Biblioteca da PUC foi, pra todos os fins e efeitos, minha estante particular. Para que eu compraria um livro se poderia pegá-lo na Biblioteca da PUC e renová-lo pela internet indefinidamente?
[…]
  Por fim, tenho pessoas amigas cujas estantes são verdadeira retrospectiva das listas dos mais vendidos dos últimos vinte anos: 1968 A Elite da Tropa que Não Acabou Marley, Olga e Eu na Estação Carandiru do Nome da Vinci do Mundo das Comédias da Vida Privada de Sofia da Arte da Felicidade do Queijo do Pai Rico, etc etc.
  Então, nunca mais comprei esse tipo de livro.
  Não porque sou um intelectual esnobe que estava lendo a edição da Cosac Naify de Moby Dick — que aliás nunca comprei. Mas porque não faz sentido comprar livros que metade das pessoas que conheço tem. Eu pego emprestado.
[…]
Sempre que estou na livraria, com o livro na mão, na ânsia de comprar, eu me pergunto:

“Vou mesmo começar a ler esse livro hoje? Se não hoje, vou ler esse livro alguma vez na vida? Vale a pena gastar sessenta reais em um livro que provavelmente não vou ler? Alguma pessoa que conheço tem esse livro pra me emprestar? Vou ter onde guardar tanto livro? Vou ter dinheiro para pagar a mudança de tantos livros? Vale a pena?”

  Acabo só efetivamente comprando os livros que pretendo usar para o trabalho. Que vou sublinhar, rabiscar. Senão, pego emprestado na biblioteca ou de um amigo, baixo uma cópia pirata, ou mesmo, se for curto, leio inteiro na própria livraria.
  Essa é aliás a principal função social da megalivraria de shopping, praticamente um programa de distribuição de renda: eu jamais seria capaz de sentar em uma livraria independente e ler um livro de cabo a rabo.
[…]
  Hoje, tenho uma estante só para “livros que estão de saída”: aqueles que eu não quero mais e vou vender pro sebo na próxima oportunidade. Nos últimos dez anos, saíram muito mais livros do que entraram na minha casa. Desisti de trocá-los por créditos no sebo porque acabava nunca comprando nada. Quero mais espaço, não mais livros.
Algumas pessoas usam seus livros como os caçadores usavam as cabeças de animais:

“Olha o antílope que eu cacei! Olha o Quarup que eu li!”

  Tenho outra política: se já li o livro e não vou ler de novo, passo adiante. Vendo para um sebo. Doo para uma biblioteca. Repasso a um amigo. Qualquer coisa é melhor do que deixá-lo ocioso entre os meus troféus. Não tem sentido entupir minha casa com livros que não vou mais vai ler.
  Entretanto, mesmo depois de doar ou vender quase 90% dos meus livros, ainda assim vivo em uma casa cheia de livros. E, de vez em quando, alguém entra e diz, espantado:

“Puxa, você leu tudo isso?”

E eu respondo:

“Não. Os que eu li já foram embora. Esses são os que eu não li ainda.”

Trecho de Prisão Dinheiro, de Alex Castro.
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Gentes. É tanta obviedade que eu não preciso dizer mais nada, né?

6 comentários

  1. Oi Fabiana!
    Eu acho uma excelente ideia, podemos passar as listas dos que temos pra trocar e enviar por correio 😉 Só não fala que vai fazer um “grupo no face” pra isso… nada contra, mas eu não tenho facebook :P!!
    Bjus!

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  2. É sobre isso que eu tenho pensado bastante! As pessoas gostam de falar que tem isso ou aquilo, que compraram, que “está na lista de leitura”. Mas TER o livro não significa absorver seu conteúdo por osmose – às vezes nem lendo a gente consegue realmente se apropriar do livro, que dirá só olhando, não? Rsrs.
    Eu estou em uma campanha interna de ir eliminando os livros que não vou ler de novo – podemos trocar, inclusive, se te interessar 😉
    Bora colocar os livros pra circular, gentes!

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  3. Geeeente! É disso que tô falando. Eu também passo adiante os livros que não relerei, só fico com os favoritos que serão relidos inúmeras vezes ao longo da minha vida. Nunca quis ter uma biblioteca em casa, acho até mesquinho ter um monte de livro estocado que serão (se é que serão) lidos apenas uma vez por uma única pessoa. As pessoas estão achando que ter livros é mais importante que ler livros, triste… :/

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