Seu celular, seu apêndice – e um livro sobre

Quando eu era pequena, celular era caríssimo, não era coisa de criança. Fui ter meu primeiro celular aos 18 (e isso porque eu o achei no banheiro de um shopping). Tecnologia CDMA, lembra? Você comprava o número, não existia chip (crianças, vocês podem não lembrar!). Era para executivos, empresários, gente de negócio. Adultos.

Hoje é uma dependência, uma necessidade. Crianças de dois anos (menos ainda, né?) usam um aparelhinho desse melhor do que eu. Faz parte da vida desde o berço. Hoje as pessoas choram quando estão sem, ficam em choque, ficam desconcertadas.

Indo de encontro a tudo que eu penso, em como ficamos, e para onde estamos indo, com nossa dependência tecnológica ->

Trecho do primeiro capítulo do “Homem máquina” de Max Barry (os sublinhados são meus):

“Ao acordar, fui pegar meu celular e ele não estava lá. Comecei a tatear pela mesinha de cabeceira, meus dedos se enfiando entre romances que eu não lia mais porque, quando se vira adepto dos e-books, não há mais volta. Mas nada do celular. Ergui o corpo e acendi o abajur. Rastejei para baixo da cama a fim de ver se o celular tinha caído durante a noite e ido parar ali de algum modo. Minha visão ainda estava meio embaçada por causa do sono, então passei os braços pelo carpete na esperança de encontrar algo. Acabei levantando poeira e tossindo. Mas continuei a varredura com os braços. Pensei: Será que fui roubado? Eu achava que teria acordado se alguém tivesse tentado surrupiar meu celular. Uma parte de mim teria percebido.

Entrei na cozinha. Minicozinha. Não era um apartamento grande. Mas era limpo, porque eu não cozinhava. Eu teria visto meu celular ali. Mas não vi. Dei uma olhada na sala de estar. Às vezes eu me sentava no sofá e via TV enquanto brincava com o telefone. Era bem possível que ele tivesse caído entre as almofadas. Poderia estar ali agora, apenas escondido. Tremi. Eu estava nu. As cortinas da sala estavam abertas, davam para a rua. A rua dava para a janela. Às vezes passavam pessoas com seus cães e crianças indo para a escola. Tremi de novo. Eu devia vestir alguma roupa. Meu quarto estava a menos de 2 metros de distância. Mas meu celular poderia estar mais perto. Poderia estar bem ali. Cobri os genitais com as mãos, disparei pela sala e comecei a tirar as almofadas do sofá. Vi algo de plástico preto e meu coração deu um pulo, mas era só o controle remoto. Fiquei de quatro para tatear embaixo do sofá. Minha bunda começou a formigar ao primeiro toque do sol da manhã. Torci para que não houvesse ninguém em frente à janela.

Não tinha nada em cima da mesinha de centro, mas embaixo havia um monte de obras de referência em que eu não tocava desde o surgimento do Google. Uma lista telefônica, por algum motivo. Uma lista telefônica. Três milhões de folhas feitas de árvores mortas empilhadas como um monumento à ineficiência do papel como plataforma de distribuição de informação. Mas nada de celular. Sentei. Um cão latiu. Pela primeira vez na vida desejei ter uma linha fixa, para poder ligar para meu celular. Dei uma olhada em cima da TV e não havia nada, mas talvez eu tivesse deixado o celular ali e ele tivesse sido deslocado por alguma atividade sísmica imperceptível.

Quando atravessei a sala, meu olhar cruzou com o de uma garota fazendo cooper. O rosto dela estava contorcido. Talvez por causa do esforço. Atrás da TV havia uma civilização inteira de fios, mas nada de celular. Tampouco estava no balcão da cozinha. E muito menos na mesinha de cabeceira, ou no carpete, ou em todos os lugares onde eu já tinha procurado. Eu estava batendo os dentes. Não sabia se ia fazer calor. Poderia chover, poderia ficar úmido, eu não fazia ideia. Eu tinha um computador, mas ele levava uma eternidade para inicializar, mais de um minuto. Eu teria que escolher minhas roupas sem saber a previsão do tempo. Isso era insano.

[…] Fui pegar o celular para ver a hora e soltei um grunhido. Aquilo era como estar cego.”

Ok, mais atual e real impossível, né?

Alguns brevíssimos comentários:

como você percebe que está levemente dependente de toda essa tecnologia:

– preferir mostrar a bunda para o mundo do que recuar dois metros e vestir uma cueca, demorando quinze segundos a mais… porque não, né?

– der  desculpas absurdas para questões irrespondíveis, e que nem você consegue acreditar

– o imediatismo da geração, onde um minuto de inicialização é muito; onde a página demorar 10 segundos para abrir enche o cidadão de ganas de jogar o aparelho no chão

– como alguém conseguiria escolher as roupas sem o auxílio de um aparelho desses, certo?  Como? COMO??? (nas palavras do livro) Isso é INSANO!!

Um comentário mais longo:

Marshall McLuhan escreveu, em Understanding Media: The Extension of Man (1964), que as tecnologias se tornaram extensões do homem. Apêndices. Especialmente tecnologias de comunicação. E que se o homem é privado delas, sente-se como se houvessem arrancado um braço, um membro importante de seu próprio corpo. Porque com esses apêndices é melhor, porque com eles é “completo”.

O livro do Barry leva essa dependência, esse apêndice, “um pouco” aos extremos. Estou lendo ainda, mas estou gostando.

Ps.1. Que fique claro, eu não sou anti-tecnologia. Uso kindle, celular, computador, notebook e tablet. Mas não posso deixar de concordar com isso quando vejo os jovens estudantes da universidade em que trabalho, em bando, mas sem um falar uma palavra com o outro. Todos curvados com o celular nas mãos.

Ps.2. Até relógio eu tenho tentado evitar usar – minha vida já tem correria suficiente para eu ainda juntar com o cacoete de ficar olhando o aparelhinho all the time.

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“Sua dose diária de (insira aqui sua leve neurose)

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