“OH MEU DEUS, olha essa edição!!!”, ou o livro-fetiche

Eu adoro livros. Eu cheiro livros. Eu vejo livros. Eu trabalho com livros. Eu leio livros. Eu estudo livros.

Minha relação com os livros começou quando eu era muito, muito nova; meus pais sempre leram próximos a mim, e sempre me incentivaram à leitura também. Comecei com histórias em quadrinhos, livros infanto-juvenis, muita mitologia grega e Monteiro Lobato. Ou seja, eu sempre me relacionei com livros. E naquela época, não havia opção: livros eram conjuntos de folhas de papel, coladas/costuradas, com capa e miolo e texto. É claro que haviam os audiobooks, mas isso era realidade para quem realmente não podia ler — não haviam dispositivos para facilitar outros tipos de leitura. Não existiam celulares, tablets, mp3. Discman já era o topo da cadeia alimentar adolescente (e, considerem, a maioria era realmente muito ruim!).

Hoje nós temos os livros digitais. Os aparelhos não custam muito caro, praticamente todo mundo tem um celular com tela de tamanho decente, ou um tablet, um computador. Os livros físicos foram ficando mais baratos, as edições econômicas foram lançadas, para competir em um mercado onde opções não faltam. O importante é você ler a história, não interessa muito onde — se é uma edição de bolso, um audiobook, um livro em pdf levemente clandestino, tá valendo!

Ou não? Ou não mais?

Nos últimos tempos eu tenho notado um retorno forte ao livro-fetiche, ao livro-ostentação, ao livro “olha que edição maravilhosa, eu quero, não posso me desfazer dele JA-MAIS!”. Começou quando eu reparei nas edições maravilhosas da extinta (RIP, um minuto de silêncio, por favor) Cosac Naify. A edição maravilhosa de Moby Dick, as edições dos clássicos russos em capa dura… aiai. “Eu quero”. “Mas eu já li”, diz o cérebro, lá no fundo. “Dane-se, eu quero, ela é linda, vou colocar na minha estante e ficar paquerando”.

Dos livros clássicos da Cosac, eu passei a observar a febre absoluta dos livros da Darkside Books. A primeira edição (que eu também comprei, obviamente) que me chamou a atenção foi a maravilhosa Hellraiser, em imitação de couro com detalhes em dourado — e a partir daí, os livros estão cada vez mais bonitos. Encadernações em capa dura, papel amarelado, costura, fitilho de cetim para marcar páginas. Como não suspirar? E são livros de maior apelo popular — terror, ficção fantástica.

Print da tela do site da Editora Darkside Books

E quando eu achei que pararia por aí, vieram as (minhas, ao menos) novas musas. As duas editoras nas quais entro no site quase todo dia para paquerar os livros — a Ubu Editora (fundada por ex-Cosac’s) e a Carambaia, com as edições mais lindas possíveis. Vamos levar em consideração que os livros não são baratos; mas também não dá para negar que o valor é justo: as edições são luxuosas, bem acabadas, com artes exclusivas, papel pólen… Eu me pego suspirando por aqueles livros, como bibliotecária e como leitora.

Mas, pera lá: eu já li Dom Casmurro em pelo menos umas três edições distintas. Conheço a história, sei o final inconclusivo… o que me leva a comprar mais uma edição de um livro que já li? Fui procurar sobre nas raízes das minhas disciplinas de graduação e mestrado, e lembrei de um tópico amplamente discutido com alguns colegas: o livro-fetiche.

Capa do livro Dom Casmurro, pela editora Carambaia
Dom Casmurro da Ed. Carambaia. Ficou bonito, não ficou??

Já procurou no dicionário o que é “fetiche”? Segundo o Aurelião, fetiche é “objeto animado ou inanimado, feito pelo homem ou produzido pela natureza, ao qual se atribui poder sobrenatural e se presta ao culto; ídolo”. Muitas vezes nós não queremos nos apropriar da história, queremos o objeto. Seja para mostrar aos outros,seja para agradar ao ego, ou aos olhos. O que te levaria a pagar R$75 reais a mais por um livro que você muitas vezes só lê uma vez? Que tem uma edição de bolso a R$5, e mesmo assim você decide pagar R$80?

Entramos nos domínios psicológicos da estética, da posse, do “ter”, e todas as implicações disso, de acordo com sua vertente de estudo e pensamento. O suporte do texto influencia a leitura, e eu já estudei isso de trezentas formas diferentes, não precisam me lembrar. O objetivo desse texto não é explicar o porquê de você fazer isso (como eu, não estou me excluindo! Acabei de fazer meu cadastro na Ubu 😛 ), mas fazer você pensar dois segundos se vale a pena, nessa época de crise, pagar tanto por um papel. Se a experiência é válida para você, vai fundo! Mas se você pode abrir mão da edição ultra-luxo, quem sabe não valha mais a pena comprar uma edição mais baratinha? E ainda sobrar dinheiro para outros títulos da lista de pendentes?

Ah, e só para lembrar: quem não abre mão do livro físico, ainda tem a opção das bibliotecas públicas (ao menos nas cidades em que elas existem, né?)

Ps. Esse post não é propaganda de ninguém, tá? As edições são muito lindas mesmo!

2 comentários

  1. A coisa tá tão séria que quando alguém comenta de livros da darkside, geralmente se empenha muito em falar da edição (que eu também acho lindo o trabalho gráfico da editora) e quase não fala do que mais interessa: o conteúdo do livro.

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