Discurso da Servidão Voluntária, Étienne de la Boétie

Capa do livro Discurso sobre a servidão voluntária, de Étienne de la Boétie

Título: Discurso da Servidão Voluntária

Autor: Étienne de la Boétie

Editora: Antígona

Páginas:  94 p.

Ano: 2013 (1.ed. 1571 !!!)

Formato da leitura: Livro digital

Sinopse: O prestígio de La Boétie vem desta obra – ‘Discurso da servidão voluntária’ -, em que afirma que é possível resistir à opressão sem recorrer à violência – a tirania se destrói sozinha quando os indivíduos se recusam a consentir com sua própria escravidão. Como a autoridade constrói seu poder principalmente com a obediência consentida dos oprimidos, uma estratégia de resistência sem violência é possível, organizando coletivamente a recusa de obedecer ou colaborar. Foi com essa ideia que se construíram inúmeras lutas de desobediência civil no século XX, e a mesma ideia levou, entre outros motivos, à queda pacífica de muitas ditaduras.

Opinião: As formas de envolvimento político e social dos seres humanos sempre foi um assunto que me interessou. O tópico específico da servidão voluntária já vem de longe, quando eu assisti a esse documentário completo, no Youtube.

Assistindo algumas palestras nessa última semana, o livro de La Boétie foi citado algumas vezes, e é óbvio que tive que procurá-lo. Um texto já mais do que em domínio público, facilmente encontrado em .pdf pelas internetes; só tenham o cuidado de achar uma tradução decente (um texto com muitos arcaísmos, mas não adianta procurar uma tradução muito moderna – a forma de escrita do texto influencia o que ele é).

La Boétie critica a política da época, os tiranos, e principalmente, o povo que serve esses tiranos de cabeça baixa e sem discutir. Aponta que a liberdade faz parte da natureza humana, mas ela tem um problema: um preço. E é verdade, né? É muito mais fácil você receber as ordens e segui-las (e poder culpar terceiros quando algo dá errado, “só estava seguindo ordens”) do que assumir a responsabilidade pelas escolhas. A liberdade pode ser terrível aos que não estão acostumados a admitirem seus erros.

Hoje como nos tempos de La Boétie e Montaigne, a alienação é demasiado doce (como um refrigerante) e a liberdade demasiado amarga, porque está demasiado próxima da solidão.  E da loucura. – Introdução de 2004.

Lendo o “Discurso” você percebe que as coisas não mudaram muito no campo político. Na verdade, continuam extremamente parecidas. Só muda o tipo de tirano, do monárquico para o pseudo-democrata; mas em essência, há muitas similitudes.

Boétie ressalta que o tirano só tem força porque damos a ele esse poder; indicando que a servidão é um vício de difícil superação:

Que vício, que triste vício é este: um número infinito de pessoas não a obedecer, mas a servir, não governadas mas tiranizadas, sem bens, sem pais, sem vida a que possam chamar sua?

Mas que, apesar disso, apresenta uma solução simples

Ele será destruído no dia em que o país se recuse a servi-lo. Não é necessário tirar-lhe nada, basta que ninguém lhe dê coisa alguma.

Descreve três formas de “entronamento”, de assunção ao poder: por eleição do povo, por força das armas e por sucessão. Uma observação que achei preciosíssima é a tendência de políticos eleitos pelo povo a tentarem transmitir esse poder de forma hereditária, depois de eleitos. Me recordou, de imediato, todas as ditaduras do século XX, especialmente a Venezuelana – as pessoas sentem o gostinho do poder e não querem mais largar o osso de forma alguma!

Descreve a política do “pão e circo”, tão conhecida dos tempos de Roma, quando os governantes distraem a população com banquetes, teatros, prostíbulos, pagos pelos impostos caríssimos saídos do bolso da própria população.

Os teatros, os jogos, as farsas, os espetáculos, as feras exóticas, as medalhas, os quadros e outras bugigangas eram para os povos antigos engodos da servidão, preço da liberdade, instrumentos da tirania. (…)  Os tiranos romanos decretaram também na celebração freqüente das decenálias públicas, para as quais atraiam a canalha que põe acima de tudo os prazeres da boca. Nem o mais esclarecido de todos eles trocaria a malga da sopa pela liberdade da república de Platão.

Mas o que realmente me deixou pensativa (e levemente desalentada) é sua descrição – precisa – do tirano no poder e de seus amigados e “protegidos”. Em suma, La Boétie coloca que:

  • o tirano nunca tem amigos, pois não pode se dar a esse luxo
  • que relações desse tipo de poder nunca são de amizade, mas de cumplicidade – eles não podem confiar uns nos outros, mas separados ficam fracos

Quando os maus se reúnem, fazem-no para conspirar, não para travarem amizade. Apóiam-se uns aos outros, mas temem-se reciprocamente. Não são amigos, são cúmplices.

  • O tirano-mor tiraniza os poucos aos seu entorno; estes descontam em um círculo mais amplo; que por sua vez descontam em um círculo com ainda mais pessoas, de forma que a tirania atinge e engloba a todos

Parece à primeira vista incrível, mas é a verdade. São sempre quatro ou cinco os que estão no segredo do tirano, são esses quatro ou cinco que sujeitam o povo à servidão. (…)  Essa meia dúzia tem ao seu serviço mais seiscentos que procedem com eles como eles procedem com o tirano. Abaixo destes seiscentos há seis mil …

  • O povo arruma desculpas para não “ser livre”, protegendo seus tiranos por si próprios: “Era o próprio povo que forjava as mentiras em que posteriormente acreditava”
  • E, pensando na política atual, no modelo da política brasileira, especialmente, e no porque da corrupção endêmica que vemos atualmente, La Boétie descreve, com perfeição:

Tal cadeia está na origem do crescimento do Senado no tempo de Júlio, do estabelecimento de novos cargos e das eleições de ofícios, que não são de modo algum uma reforma na justiça, mas novo apoio à tirania. E, pelos favores, ganhos e lucros que os tiranos concedem chega-se a isto: são quase tantas pessoas a quem a tirania parece proveitosa como as que prezam a liberdade

  • E falando da corja que sempre anda reunida, dos “mais próximos”; ou, como podemos falar hoje, dos que têm rabo preso nas delações premiadas:

O camponês e o artesão, embora servos, limitam-se a fazer o que lhes mandam e, feito isso, ficam quites. Os que giram em volta do tirano e mendigam seus favores, não se poderão limitar a fazer o que ele diz, têm de pensar o que ele deseja e, muitas vezes, para ele se dar por satisfeito, têm de lhe adivinhar os pensamentos.

Já apresentei muitas citações, que embora explicadas, devem ser devidamente contextualizadas. Um livro atualíssimo, ótimo para embasa algumas discussões – em salas de aula ou em mesas de bar – e, o melhor, gratuito. Aqui tá o link de onde eu baixei, achei essa versão bastante OK. Se ler, passa aqui para comentar, podemos marcar um café. Ou um chopp 😀

Recomendadíssimo!

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