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Conversas com um jovem professor, Leandro Karnal

Capa do livro Conversas com um jovem professor, de Leandro KarnalTítulo: Conversas com um jovem professor

Autor: Leandro Karnal

Editora: Contexto

Páginas:  143 p.

Ano: 2012

Formato da leitura: Livro digital

Sinopse: O professor entra na escola e parece que nasceu para dar aula: sabe como lidar com os alunos, faz camaradagem com os colegas, dialoga com os pais. Nunca comete um deslize, passa muito bem o seu recado e todos o adoram. Será que nasceu sabendo ou foi aprendendo ao longo de alguns sucessos e outros tantos fracassos? Muitos são os livros que trazem teorias sobre a sala de aula, mas faltava um sobre a prática de ensinar. Não falta mais. Nestas ‘conversas’ o leitor não encontrará citações de grandes obras, conhecerá experiências em classe. Tanto as que deram certo como as que fizeram o autor se arrepender depois. Professor com vasta experiência, dono de texto envolvente, Leandro Karnal discute os problemas cotidianos daqueles que lecionam: como dar aula, como corrigir provas, o que é necessário lembrar numa reunião com os pais. Em poucas palavras: como realmente lidar com as práticas escolares. Obra imprescindível para quem se aventura a ensinar.

Opinião: Eu admito: não fiz faculdade de História com primeira opção da minha vida acadêmica/profissional porque nunca quis dar aulas para alunos de ensino fundamental/médio como ganha pão. Eu me coço (até hoje, inclusive) só de pensar em 40 quase-adolescentes enfiados em uma sala de aula comigo.

Em 2014 eu tive minha primeira experiência profissional lecionando, e foi direto com a Graduação. Alunos adultos (ou quase), com responsabilidade sobre si, a quem eu devia ensinar, mas não necessariamente fazer parte de sua formação básica. Achei mais fácil, mais fácil de responder e lidar, mais fácil porque eles estão ali porque (teoricamente) escolheram, e não foram obrigados (como muitos alunos enxergam o ensino médio).

Mas eu estou fazendo um curso de licenciatura, e cedo ou tarde vou ter que enfrentar as hordas. Sim, as hordas, tipo no game Gears of Wars (tem outro mais famoso que usa o termo, mas que eu não jogo). E pensando nisso, encontrei o livro do Karnal, Conversas com um jovem professor. Fiquei apaixonada pelo livro, essa é a verdade.

Não é mais um livro exaltando a beleza da profissão, ou dando conselhos teóricos/sociológicos/filosóficos sobre ensinar. São conselhos PRÁTICOS. Alguns que a gente até já “sabe”, mas que sempre é diferente você ouvi-los de outra pessoa. E ele também fala de ganhar pouco, de ser pouco valorizado, dos problemas.

Os capítulos são bem divididos. Começa com a primeira aula, e as coisas que importam: você, professor; o conteúdo; as condições externas – tempo, temperatura, notícias do dia; e o mais importante, o aluno. Por vezes esquecemos que não estamos ali apenas para ganhar dinheiro para pagar a conta de luz, mas estamos ali para ensinar. O aluno é o alvo.

O comportamento do aluno pode ser um problema: ele não é um problema. Voltamos à metáfora médica: a doença é o problema, o doente não é.

Essa frase foi impactante para mim. Estudei todo meu primeiro grau em uma escola de bairro, em um local que depois virou comunidade, e vi muito aluno falando que não queria estudar porque “ia virar traficante mesmo”. Parabéns aos professores que lidaram com isso, que eu vi lutando para não deixar isso acontecer, mesmo sabendo da inevitabilidade em alguns casos.

O capítulo seguinte fala das “Pedras na Estrada”, os erros que todos mundo comete, por falta de maturidade, de paciência ou de autoconhecimento – maravilhoso esse capítulo, me fez lembrar alguns situações em sala (como aluna, especialmente), e acordar para o quanto devemos nos controlar como professores e exemplos.

Há um capítulo interessantíssimo sobre criatividade (aulas criativas, métodos criativos, algumas sugestões de aplicação da criatividade em sala):

Estimular que a aula e o aluno sejam criativos é uma maneira de sugerir e reforçar o poder subversivo do conhecimento. Conhecer de verdade, de forma orgânica, é subverter crenças tradicionais. Ser criativo é um diálogo político com a transformação social. Nesse momento, eu entendo que toda educação tem um fim político, no bom e velho sentido que a palavra política tem.

e um ainda mais legal sobre os infernos: Pais, Colegas e Diretores. Lembrando que o inferno são os outros (disse Sartre),

Deus inventou a educação e o diabo, invejoso, o colega

(hihihi) e que lidar com esses pontos pode ser a coisa mais difícil a fazer, a que mais vai te tirar do sério, mais ainda que os alunos.

Lembre-se de uma regra de ouro: seus fracassos serão eventualmente criticados, mas seus sucessos causarão ódio muito maior.

e

Ser bom implica riscos. Ser ruim não implica riscos, talvez, por isso, exista tanta gente que seja ruim.

Dicas sobre discrição na reunião de mestres (gostei muuuito, do autor nos lembrar do esforço empreendido em um filho, e no possível estresse que todo pai/mãe tem por isso) e no conselho de classe.

Um capítulo sobre elaboração, aplicação e correção de provas (muito válido, dicas práticas).

Nenhum professor deveria utilizar avaliação como forma pessoal de afirmação

(alguns professores que tive deveriam ter lido isso…)

Mas o capítulo que eu mais gostei foi sobre as Tecnologias em sala de aula. Quem me acompanha aqui no blog sabe que eu tenho sérios problemas em me entender com algumas tecnologias, superexposição em mídias e a falta de profundidade que os veículos de informação expressam na época em que vivemos. E Leandro, que já tem de magistério o que eu tenho de idade, consegue colocar dicas absolutamente críveis e sensatas sobre como usar a tecnologia a seu favor em sala. Fiquei bo-ba!

A tecnologia é uma ferramenta privilegiada, jamais o objetivo em si. O computador funciona como alavanca: move melhor a pedra pesada, mas o objetivo continua sendo mover a pedra.

Um breve capítulo, não menos importante, escrito por sua irmã, Rose Karnal, que é professora das séries iniciais, sobre a Disciplina. A importante e não-valorizada disciplina. E, para fechar, um conjunto de informações e conhecimentos à respeito da pergunta: por que continuo sendo professor?

Achei praticamente indispensável aos que hoje lecionam. Uma visão ampla e sincera, apontando os contras e os prós da didática, do dia em que você quer matar o aluno ao dia em que você vê a centelha do entendimento brilhar no olhar dele.

Me deu até ânimo de encarar minha primeira turma de ensino fundamental (espero manter esse ânimo até a época do estágio supervisionado…) RECOMENDADÍSSIMO.

Ps.Uma última citação, longa. E válida, muito válida:

Não é possível fazer nada no mundo sem professores. Todos os médicos, engenheiros, políticos, operários especializados foram, por alguns ou muitos anos, alunos. Todos tiveram professores. É um exército invisível. Vemos as obras prontas: o paciente curado, a máquina construída, o texto escrito e esquecemos que atrás de cada autor há um professor. Somos a malha invisível que dá coesão social.

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