Duas mulheres de mãos dadas: sororidade

Pequenos pensamentos sobre situações cotidianas – feminismos

Acabei de ler o “Para educar crianças feministas”, da Chimamanda (se essa mulher não existisse, teria que ser inventada!). E estava pensando cá na minha vida, nas minhas escolhas, nas escolhas sociais que me cercam. E ao invés de uma resenha (tem ótimas por aí sobre esse livro, é só procurar!!), ou de um comentário estrito, alguns pequenos pensamentos que a leitura me suscitou.

(Afinal, isso aqui ainda é um BLOG, e é MEU BLOG, então são os MEUS PENSAMENTOS. Se eu escrever algo que você não concorde você pode: a) debater educadamente ou b) fechar a página. Simples, não?)

— Pensamentos sobre feminismos na (minha) vida —

– Meu pai foi o primeiro homem feminista da minha vida. Quando eu tinha 3/4 anos, e seu trabalho era mais flexível, era ele quem ficava em casa comigo e com meu irmão para que minha mãe terminasse os estudos, depois de trabalhar o dia todo. E eu nunca ouvi ele falando que “ajudava” minha mãe.

– Ah, e eu tive as melhores bermudinhas com estampa de robôs, e camisas azuis do Transformers, e galocha azul da Turma do Arrepio também – que ele comprava para mim ❤ E me vestia e levava para andar à toa aos domingos de manhã, para minha mãe descansar.

– Frases do meu pai:

  • “Enquanto não aparecer barriga, ninguém precisa saber se você é virgem ou não, problema é seu se não quiser falar”
  • “Faça o que quiser, só não volte doente, nem grávida (preferencialmente termine de estudar primeiro)” – contexto: primeiro namoradinho sério

– A gente não tinha dinheiro para brinquedos, mas meu pai me deu muitos livros (especialmente de mitologia), e me emprestava seus faroestes do Corin Telado (joga no Google, gentes). E me ensinou a rodar pião, jogar bola de gude e taco (“bats”, em Curitiba 😛 ), me deu minha primeira bicicleta quando o dinheiro permitiu. Nunca reclamou do tamanho das minhas roupas, sempre achou os vestidos da minha mãe “muito compridos”, e achava linda ela de batom vermelho e saltão (como ainda acha sem eles <3, 38 anos depois)

– Cresci vendo isso. Hoje meu pai é aposentado, levanta antes da minha mãe, faz café, lava a louça, faz compras, varre o chão, limpa banheiro. E eu me orgulho, porque a época dele, sua criação, e seus irmãos e parentes, têm ooooooutra visão do que é “ser homem”.

– Quando fui morar com o sr. meu marido, eu já estava com todo esse “software” instalado; mas levei um tempo para conseguir compartilhar as configurações. Não por ele, mas por todo o background circundante. E é aí que você vê o estrago que algumas coisas fazem, algumas influências, os pensamentos normo-machistas sociais.

– Meu marido arruma a casa (admito que tem coisa que ele faz, há menos tempo, muito melhor que eu, que aprendi há 20 anos…), limpa banheiros, cuida dos cachorros; hoje em dia, cozinha bastante bem. E eu me orgulho de ter visto ele descobrindo todas essas capacidades – a capacidade de cuidar de si mesmo é uma das mais importantes que podemos ter, independente do gênero. E NÃO EXISTE “ele me ajuda”. A casa é dos dois, a louça é de ambos, o banheiro da casa recebe todas as bundas e xixis.

– Meu marido segurou todas as contas da casa durante algum tempo (maior do que eu queria, admito também), enquanto eu terminava a graduação e no primeiro ano do mestrado. E eu não me envergonho, e isso não me faz menos feminista, e eu não acho que fui “mulherzinha” ou “sustentada”. E estou dando o maior apoio para ele fazer o mestrado dele também, inclusive se quiser ficar sem trabalhar para isso.

– Eu tenho preguiça de gente que fala “feminazi”, de pessoas sem empatia… na verdade tenho preguiça de gente, mesmo 😀 Eu entendo a criação, as diferenças culturais e as socio-econômicas-culturais (não disse que aceito, disse que entendo), de quando ouço alguém em diarreia verbal; mas às vezes é difícil de aceitar, especialmente nos círculos acadêmicos, onde TEORICAMENTE as pessoas DEVERIAM ter o mínimo esclarecimento. Então eu simplesmente me afasto, que não estou aqui para discutir. Quer ouvir, a gente debate; não quer, não encha meus pacovás.

– Eu sei que devemos dialogar, que se não falarmos nada as coisas não mudarão, que precisamos nos unir e nos ajudar (SORORIDADE, palavra mais LINDA); que mulher não é inimiga, que ex de namorado atual não precisa (e geralmente não é) a puta-maluca que alguns gostam de pintar; que a beleza da outra não diminui a minha. Que eu devia militar mais, mas estou um tanto cansada, e pensando em como posso fazer a diferença (sobre os tópicos aqui listados, recomendo fortemente o Lugar de Mulher. Faça um favor a si mesmX e leia o site TODO, TODAS as postagens).

– Você não vai enxergar os problemas se continuar na sua bolha de privilégios. Saia dela, faz favor. Situação exemplo: hoje eu estava na BR esperando o ônibus, sozinha no ponto. Parou um carro para pedir informação, com vidro fumê e um homem sozinho. Levantei e saí andando, e falei alto “não sei nada daqui não”. O cara arrancou o carro, puto e xingando. Mas, em nenhum momento, ele pensou em ver minha situação? Em como a situação foi incômoda para mim? Em como eu deveria, sim, ficar com medo? Quantas mulheres são assaltadas e estupradas? A BR não é o lugar mais seguro (para ninguém, viu o sequestro do ônibus essa semana? Então, eu estava NESSA BR), e ele achou mesmo que eu ia responder com um sorriso no rosto?


Esses são apenas alguns pensamentos. Parecem um desabafo, né? Pois são. Tem coisas que às vezes entalam na goela.

Sobre o livro:

LEIAM. (tudo da Chimamanda, de preferência). No caso, ela escreve conselhos a uma amiga com uma filha recém-nascida, que a pergunta “como posso criar minha filha como uma feminista?”. E os conselhos são lindos, e humanos, e a-gêneros. 2 princípios fundamentais e quinze conselhos maravilhosos. Vou comprar alguns exemplares desse livro e dar de presente por aí!

UPGRADE PÓS-PUBLICAÇÃO: Percebi que só falei do meu pai, e não da minha mãe. Motivos: falar da minha mãe é abrir um buraco de gratidão irrestrita no meu peito, e acho sinceramente que não encontro palavras para falar da FODASTICIDADE dela. De tudo que ela é para mim e para diversos outros no seu entorno. Não consigo. Amo demais, devo (devemos) muito à ela.

O outro motivo é que minha surpresa foi descobrir, quando fiquei maior, que os pais (homens) das coleguinhas de classe não tinham NADA em comum com o meu – por isso o foco no que meu pai sempre me mostrou.

2 comentários

  1. Muito bom. Tbm tenho um marido que, percebo eu, tenta não reproduzir o machismo de sua infância. O meu sogro era um ditador, desligava a TV na frente das visitas pq minha sogra não podia assistir, era servido na mão e sua palavra era a última. Tenho consciência que nascemos em uma sociedade machista e se eu, mulher, às vezes reproduzo o machismo, que dirá um homem criado assim. Mas a diferença está na reflexão. Em pensar: não, eu tô errado. E percebo que meu marido age assim, tentando mudar seus conceitos, o que não é fácil para ninguém. Não tô falando de coisas alarmantes, mas tipo assim, aquilo de dizer ” vou te ajudar” ou “quando eu tiver uma filha…” Aí eu explico que não é assim que as coisas funcionam e ele me escuta, tenta analisar, refletir… A gente pode se desconstruir o tempo todo. A diferença entre as pessoas está em aceitar essa desconstrução…

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s