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O tribunal da quinta-feira, Michel Laub

Capa do livro O tribunal da quinta-feira, de Michel Laub

Título: O tribunal da quinta-feira

Autor: Michel Laub

Editora: Companhia das Letras

Páginas:  182 p.

Ano: 2016

Formato da leitura: Livro em papel

Sinopse: Um publicitário faz confissões por e-mail ao melhor amigo. Os textos falam de sexo e amor, casamento e traição, usando termos e piadas ofensivas que contam a história de uma longa crise pessoal. Quando a ex-mulher do protagonista faz cópias das mensagens e as distribui, tem início o escândalo que é o centro deste romance explosivo. O fio condutor da história, que une o destino dos personagens diante de um tribunal inusitado, são os reflexos tardios e ainda hoje incômodos da epidemia da aids, e o que está em jogo são os limites do que entendemos por tolerância — mas para chegarmos a eles é preciso ir além do que seria uma literatura “correta” ao tratar de homofobia, assédio, violência, empatia, liberdade e solidariedade.

Opinião: Eu fui atrás desse livro porque a premissa me chamou bastante. Li opiniões divergentes. Nenhum opinião ruim, mas muitas indicações de incômodo. Incômodo pela forma como as coisas são tratadas, pelo assunto, por algumas das questões levantadas. E decidi que só lendo para saber o motivo do incômodo. Acho que descobri, embora não concorde.

Vamos lá, algumas polêmicas, alguns leitores a menos – e olha que só tenho uma mão deles, não devia me arriscar em perder os poucos conquistados, rsrs!

Eu não me choquei e não fiquei desconfortável por um motivo simples: eu não vejo relações pessoais como a maioria das pessoas que eu conheço. Eu não acredito no amor romântico, para sempre e bilateral para a eternidade. Não acredito em amizade eterna entre pessoas que são diferentes, e se tornam mais e mais diferentes com a idade – mas é possível, claro. Eu acredito que as pessoas são humanas, e erram, e são diferentes entre si, e são diferentes perto e longe de nós; e que interagem de forma diferente com pessoas diferentes; e que nós nunca saberemos de verdade o que se passa em suas cabeças – eu mal tenho certeza do que habita a minha.

Então nada do que está no livro, nenhum ponto de vista, me é “novidade”. E eu tento não julgar nenhum dos lados, apesar de uma raivinha ou outra ocasional. Mas alguns pontos que me fizeram ficar mais “espezinhada”:

Como diz a sinopse, e eu comecei daí: “a ex-mulher fez cópia das mensagens”. Já aí a primeira questão: COMO? Se o seu companheiro tem uma conta de e-mail privada, da qual você não possui a senha, e mesmo que você desconfie de alguma coisa (especialmente DEPOIS que estiverem separados!), você acredita mesmo que “tem direito” a invadir, tentar e descobrir entrar nesse e-mail? Ler a correspondência privada da pessoa, e não apenas isso, distribuí-la entre os conhecidos? Você acha que uma separação justifica, mesmo uma traição? Tem um trechinho sobre isso aqui no outro blog, ó.

Segundo ponto: todos temos amigos. E todos falamos com eles usando, sim, uma linguagem própria, especialmente os de loooonga data. Meninas amigas chamam umas às outras de “vaca” (já vi muito), mas vai um desconhecido chamar assim, certo? Acho que a ideia no texto é a mesma. O fato dos personagens entre si usarem “termos ofensivos”, muitas vezes denota o tipo de relação e intimidade entre eles. Podem justificar isso negativamente como quiser, mas não deixa de ser verdade.

Terceiro ponto: o julgamento das pessoas desconhecidas sobre a vida alheia. Quando um assunto cai na internet e a coisa toda explode, qual é o nosso direito de ofender outras que não tem NADA com a nossa vida? Ter opinião é uma coisa, ofender é outra; mas e quando o “efeito manada” inflama até o mais calma dos corações, e o incita à resposta? Minha veia sociológica revendo tudo que sei sobre solidariedades orgânica e mecânica, sobre sensação de pertencimento e punição social… você tem direito à opinião, mas onde fica seu direito à ofensa direta ao próximo/aos próximos?

O livro é ótimo. Gosto muito de acompanhar os pensamentos vicerais de outra pessoa. Sem esconder nem de si próprio (mania universal, construir um mundo dentro de nós e esconder coisas de nós mesmos). Gosto de ler e ver a integralidade e a complexidade dos atos e pensamentos, porque nós só podemos ver suas consequências, mas geralmente não o que levaram as pessoas àquele ponto. Precisei de tempo e vários acontecimentos na vida para aprender a tentar vislumbrar essa complexidade, essas camadas, a levar em consideração outros fatores. Às vezes só quem vai entender é quem está dentro daquela pele. Às vezes as pessoas saem machucadas, às vezes a gente se machuca para não machucar. Muitas variantes, muitas variáveis.

Se você tem ideias fortes dobre relacionamentos, sobre ética (conheço muitos que têm, mas que não dizem quando recebem 1 real a mais de troco no supermercado…), sobre o “certo absoluto”, sim, talvez te incomode muito. E isso pode ser bom. BOM.

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