Capa do livro Literatura como remédio, de Dante Gallian

A literatura como remédio, Dante Gallian

Nos últimos tempos eu estive às voltas com um assunto que me tira o sono: para quê eu leio? Pensamento chato, que fica me cutucando, e que joguei na rede para ver se algum colega ajudava. O Joe deixou um ótimo comentário, que deixou um quentinho no meu coração. A outra resposta veio da Paty, que postou no insta dela esse livro maravilhoso.

O Gallian é historiador por formação; e devido à reviravoltas profissionais, acabou envolvido com a área da saúde – trabalhando na Escola de Saúde da UNIFESP. Lá,  começou a trabalhar com grupos de leitura de livros literários como forma de humanizar, de lembrar aos alunos das nossas raízes humanas.

Isso fez muito sentido para mim. As emoções de um bom autor transpiram pelas páginas e nos atingem de forma certeira. Ler é uma ótima forma de praticar empatia, de se colocar no lugar do outro, de acessar memórias, de viver. E Gallian vai além: não só propõe que leia literatura, ao invés de debater textos científicos da área, como explicita que os textos escolhidos devem ser os clássicos!

Um clássico torna-se um clássico por uma série de fatores, mas aqui destaco uma: sua atemporalidade. Você pode ler um livro escrito em 1000, 1500, e ainda conseguir se identificar com a história. Geralmente isso acontece por causa dos componentes fortemente humanos que a narrativa apresenta. Você pode estranhar os cenários, mas o amor é identificado em qualquer momento histórico. O amor, o ódio, a vingança, são sentimentos que fervilham em nós há séculos, e uma narrativa bem contada traz a identificação.

Dividido em diversos capítulos, que contam a trajetória do autor, o início da experiência, a consolidação da prática em um Laboratório de Humanidades, e ainda, em um Laboratório de Leitura, o livro mostra que o que começou com uma experiência compartilhada virou disciplina, pesquisa acadêmica e ultrapassou as portas universitárias em direção aos domicílios e empresas.

Para mim, a melhor parte (como bibliotecária, especialmente) foi a descrição metodológica e dos objetivos dos grupos: Um espetáculo, poder pensar a literatura e seu impacto emocional, no lugar dos aspectos teóricos e acadêmicos.

Diante de “histórias de leitura” que mais parecem análises ou pareceres críticos, fundamentados em autores balizados ou teorias estabelecidas, o coordenador [do Laboratório] deve insistir sempre no compartilhamento de afetos, sentimentos e outros conteúdos mais subjetivos (…). Os grupos de Laboratório de Leitura não podem ser confundidos com grupos de estudo acadêmicos e científicos, onde se discutem autores, ideias e teorias. (p110-111)

Mais para o final, Gallian reproduz alguns depoimentos de participantes, e eu fiquei automaticamente apaixonada pela ideia de pedir exoneração aqui e ir lá trabalhar com isso (moço, me emprega!).

Quando nos permitimos e permitimos que uma obra de arte – uma história, uma narrativa, por exemplo – nos afete, que entre em nosso cérebro, em nosso entendimento, em nosso interior, em nosso coração, isto acaba por desencadear em nós uma movimentação de sentimentos, de ideias, de questionamentos, de descobertas que quer, inevitavelmente, aflorar, vir à tona. (p.105)

Fiquei cheia de ideias e caraminholas na cabeça, e com mais vontade de ler os clássicos, de dividir os sentimentos relacionados aos livros, de procurar rodas de leitura… e sim, de fazer mais leituras silenciosas, de saborear mais meus livros, de curtir meus momentos de “solidão literária”.

Ps. Agradeço ao Joe pelo lindo comentário que deixou no outro post. Ainda está reverberando na minha cabeça, viu?

Capa do livro A literatura como remédio, de Dante GallianTítulo: A literatura como remédio

Autor: Dante Gallian

Editora: Martin Claret

Páginas:  214 p.

Ano: 2017

Formato da leitura: Livro digital

Sinopse: Não há dúvida de que a leitura dos grandes clássicos da literatura universal seja um meio privilegiado para o nosso desenvolvimento intelectual e cultural. Mas e se nos dissessem que, além disso, esta leitura pode nos curar de muitas doenças da alma? Baseado numa experiência desenvolvida originalmente numa escola de medicina, este livro fala sobre um experimento (o Laboratório de Leitura) que, partindo da leitura e discussão coletiva dos clássicos, tem propiciado um poderoso efeito humanizador e terapêutico que vem transformando a vida de muitas pessoas. 

 

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