Future-se: entendeu ou quer que eu desenhe?

Se você frequenta a Universidade Pública no Brasil, pretende frequentar, ou até pretende que seus filhos, sobrinhos, irmãos frequentem, você deve ter ouvido falar no “Future-se”. Se não ouviu, ONDE VOCÊ ESTÁ COM A CABEÇA, HEIN???

Eu frequento universidades públicas, como graduanda, mestranda, professora e servidora, desde 2005. Esse tempo foi suficiente para eu começar a entender como funciona a máquina pública, como as políticas públicas nos atingem e quais as suas consequências. Então, antes de escrever minhas considerações sobre o que o tal do Future-se oferece, uma breve explicação, desenhadinha e bonitinha, do que é esse projeto.

(PS. INFORMAÇÕES TRANSCRITAS DO FOLDER DO Coletivo RUA – Foi a melhor explicação rápida que encontrei, sério, parabéns para vocês, viu?)

Após o ponto colocado pelo pessoal do RUA, tem minhas considerações sobre, com algumas explicações necessárias (especialmente para quem não sabe como funciona a parte administrativa da Universidade)

“Eu vejo o FUTURE-SE repetir o passado: 8 pontos para entender e lutar contra o projeto de privatização das nossas universidades”

1. O projeto desresponsabiliza o governo federal de garantir o direito ao ensino superior público e gratuito, passando a gestão das Instituições Federais de Ensino Superior [IFES] para empresas chamadas de Organizações Sociais “OS” que administram os recursos e a gestão da Universidade

Você conhece algum órgão teoricamente público administrado por uma OS? Te dou um “ótimo” exemplo: as Bibliotecas-Parque do RJ. Todas já abriram e fecharam diversas vezes, depois de terem sido construídas e/ou reformadas, por total e completa falta de competência na gestão dos espaços.

2. Para o MEC, a autonomia de conhecimento das IFES é financeira e organizacional (gerida pela OS) e não didático-científica, já que só vão para frente os projetos que conseguiram financiamento na Bolsa de Valores, ou seja, o nosso conhecimento vai ser caracterizado como útil e inútil, segundo os interesses do mercado

Qual a questão de conhecimento “útil e inútil”? Qual o problema de classificarmos dessa forma? Para o mercado, conhecimento útil é aquele que tem resultados imediatos para a prática, como as de engenharia, farmácia e afins; muitos resultados importantes já vieram de pesquisas consideradas “não úteis” pelo mercado, e que só perceberam sua utilidade real tempos depois. 95% da pesquisa no Brasil é vinculada às Universidades.

3. Ao aderir ao projeto, as universidades devem liquidar todo o patrimônio para ser gerido pela OS. Isso significa que o “fundo soberano do conhecimento” que o governo propõe no projeto na verdade vai ser criado com o dinheiro público

Se o patrimônio comprado com dinheiro público vai ser liquidado para ser gerido pela OS… quer dizer que ele é de quem agora? Tudo que foi acumulado por anos, comprado com dinheiro público, que devia ser considerado patrimônio PÚBLICO… vai estar no nome de quem, de agora em diante? Sabe quanto uma Universidade vale, em termos de patrimônio, mesmo contando com a depreciação?

Imagem-Andes-SN
Imagem do site ANDES-SN

4. O governo quer substituir o organismo que compartilha experiências de gestão das universidades hoje, o ANDIFES, do qual participam todas/os as/os reitoras/es do país por um composto pelo MEC + corporações investidoras que representariam, na ótica bolsonarista, a sociedade civil

Afinal, o governo já está tirando a autonomia universitária inclusive na escolha de seus próprios reitores, né? Acabar com uma associação importante como a ANDIFES, onde os reitores conseguem se reunir, formar coalisões, resistências, brigar por suas universidades… porque não, né mesmo? E é óbvio que as corporações investidoras, detentoras de todos os meios de produção, querem o que é melhor para o mercado e seus bolsos, ô, para o povo!

5. O Future-se torna função da OS a contratação de pessoal, via CLT e não mais concurso público (que permite pesquisas continuadas independente do conteúdo pelo professor) e daria ao docente autonomia para dar cursos pagos se utilizando da estrutura da Universidade Pública

Questão de você ter funcionários concursados na pesquisa: descontinuidade e interferência. Se um servidor concursado começa hoje uma pesquisa em saúde que pode demorar 6 anos para gerar os resultados de forma consistente, ele sabe que provavelmente irá terminá-la. Se você é CLT, se pode ser demitido por razões claras ou obscuras, como saber se levará adiante tal projeto, conforme foi concebido? Quem garante que quando os resultados não forem do agrado dos supostos investidores, não o tirarão no meio (e nós nunca saberemos o resultado real de tal pesquisa não-manipulada)? Que não tentarão intereferir? Que não cortarão financiamentos quando os resultados não confirmarem os propósitos? Quando acharem que a tal pesquisa “não é importante (cláusula da utilidade, aí em cima)? Dar cursos pagos com estrutura “pública” (que nem pública vai ser mais, se o patrimônio for liquidado…) – ahca justo você pagar impostos, manter uma instituição desse porte, pro tal docente realizar cursos que encherão o bolso DELE? Cobrando, na instituição PÚBLICA?

6. O projeto, gradativamente, vai diminuir o número de vagas nas universidades públicas brasileiras, porque as OS vão querer ter a melhor qualidade nas pesquisas, garantindo que o acesso seja cada vez mais dificultado, com a menor quantidade de estudantes possível

Quem conhece coleguinhas na Universidade pública sabe: nem sempre quem passa é o aluno mais interessado e esforçado do mundo. Isso não quer dizer que no decorrer do curso não se interesse, e posteriormente não vire um puta profissional na área. E se você quiser entrar na Universidade e não fazer pesquisa? A ideia é você formar MAIS gente, e não menos, certo? Diminuir a quantidade de vagas é elitizar… com nossos problemas na educação de base gratuita, quem irá passar para essas universidades? O pessoal que paga Escola Suíça e Americana, a 8k por mês? E quem é cria de pública (como eu, inclusive), vai fazer o que?

7. Por mais que o projeto diga que vai garantir a autonomia financeira das universidades, a verdade é que todo o empenho gasto pelas administrações para garantir a qualidade de ensino, pesquisa e extensão, vai precisar ser substituído pela procura de investidores

Ou seja, só vai ter verba o que retorna ao mercado imediato e agrada ao deus capitalista, bonitinho. Quem vai investir em pesquisa histórica? Quem vai investir em pesquisa social, impactos de políticas públicas? Quem vai financiar pesquisa sobre as línguas indígenas? Se isso não for dar retorno financeiro imediato, QUEM? Afinal, pensar e desenvolver pensamento crítico não é importante, né? Povo que não pensa é muito mais vantajoso, pô!

8. O governo ainda disse que o projeto vai ser adotado apenas se a universidade quiser, o que o governo não diz é que toda universidade que disser não ao Future-se vai ter os cortes mantidos, ficando desta forma sem dinheiro para continuar funcionando!

30% de contingenciamento. A Universidade que eu trabalho já falou que até o final do ano precisamos de, no mínimo, 6 milhões para permanecermos abertos, e temos 2. Como vamos fazer? Não sei.  Existe mau uso de dinheiro, um leve desperdício? Sim. Mas em qualquer empresa pública, vamos ser sinceros. Hospitais, Ministérios, todos tem alguns buracos negros e gestão indevida.

Não preciso dizer que o objetivo do governo atual é apertar as Universidades para fazerem o que ele quer, né? Tirar a autonomia, vender a ideia do Future-se como boa, quando na verdade estarão tirando do público o ensino gratuito e acessível. Eu tenho toda minha trajetória acadêmica no público, e faço questão de brigar para que todos tenham essa oportunidade.

Se você ouviu por aí que “O Future-se é uma ótima ideia”, pense mais um pouco. Pare de engolir o que ouve por aí e coloca seu fazedor de merda (cérebro, não bundinha) para funcionar, e se pergunte POR QUÊ? A gente tem mania de achar certas ideias de girico uma boa ideia – até a água bater na bunda, até a situação nos atingir.

REFLITA, porra!

 

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