Uma verdade indigesta, imagem de Divulgação Ed. Elefante

Uma verdade indigesta, Marion Nestle

Capa do livro Uma verdade indigesta, Marion Nestle

Título: Uma verdade indigesta (Unsavory truth)

Autora: Marion Nestle

Editora: Elefante

Páginas: 368 p.

Ano: 2019

Formato da leitura: Livro físico

Sinopse: Falar de alimentação é falar de cultura, meio ambiente, relações de poder, sustentabilidade, afeto, prazer, tradição e muito mais, além do aspecto mais óbvio do impacto do que comemos na nossa saúde. Marion Nestle reúne, em Uma verdade indigesta, elementos fundamentais sobre alimentação, que desfazem a aparente confusão sobre o tema. Ao trazer essa discussão para o Brasil, certamente temos um debate mais rico para separarmos o joio do trigo.

Na atual conjuntura de concentração de poder entre os atores que controlam os sistemas alimentares da produção ao consumo, o que comemos e o que sabemos ou acreditamos saber sobre o ato de comer é fortemente determinado pelas relações de poder na sociedade. A pressão pela maximização do lucro a qualquer preço tem uma série de efeitos colaterais com sérios impactos na nossa saúde, seja do ponto de vista do efeito no nosso organismo, seja nos impactos ambientais.

Criar produtos comestíveis com ingredientes baratos, cheios de aditivos, aromatizantes, estabilizantes, espessantes, corantes, com pitadas de nutrientes para que possam ser vendidos como saudáveis, é uma das especialidades da indústria de alimentos ultraprocessados. O livro expõe essas mesmas empresas patrocinando “estudos” de produtos específicos que deveriam ser rotulados como marketing — e não como ciência.

Nenhum de nós está a salvo ou impermeável às alegações nutricionais amplamente promovidas, diretamente nos rótulos, onde são permitidas, ou por meio da disseminação de pesquisas que contribuem mais para confundir as recomendações alimentares do que para informar. O exemplo clássico é o do ovo, que de vilão da vez passou a mocinho, assim como sal, açúcar, e por aí vai.

Por muitos anos acreditei que o problema crônico de intestino preso, comum a muitas mulheres, pudesse ser solucionado tomando um determinado iogurte diariamente e, caso não funcionasse, como prometia a propaganda, poderia pedir o dinheiro de volta. Esse é apenas um, dentre inúmeros exemplos da confusão nutricional em que estamos imersos.

— Paula Johns, diretora-presidente da ACT Promoção da Saúde, no prefácio

Opinião: Vocês já viram aqueles brindes que o pessoal distribui nos consultórios? Amostras grátis de suplementos, barrinhas energéticas, até canetas e blocos? Já parou para pensar em como isso pode influenciar o profissional que está te atendendo a recomendar esse produto?

O assunto da manipulação da alimentação me interessa desde que eu comecei a “comer direito”, acho que faz uns 6 anos. Eu acompanhava o blog da Ana Granziera, e sempre lia sobre “comer comida”, até que descobri o livro “Manifesto pela comida” do Michael Polan.

Explodiu minha cabeça. Obvio que eu já sabia o quanto os alimentos industrializados era ruins, mas nunca havia parado para analisar como as políticas de governo, os subsídios, a influência política das empresas no governo, influenciam nossa alimentação de forma muito direta.

Comecei a questionar tudo: quanto do que a empresa chama de “carboidrato” na pizza congelada é açúcar adicionado? Porque “margarina” é um produto alimentício tão ruim? Porque os produtos infantis são péssimos para a saúde das crianças?  O quanto os embutidos fazem mal (o governo coloca o mal para a saúde no mesmo nível do cigarro, pasmem)? Passei a ler os rótulos, a entender o que estava comendo. A comer mais natural, minimamente processados.

Dito tudo isso, o livro da Nestle não me trouxe muitas novidades. Por trabalhar na área científica, ter trabalhado na Fiocruz um tempo, eu já sabia mais ou menos como funciona essa parte da indústria que “estimula” as pesquisas acadêmicas. Nestle faz um paralelo entre como essas influências ocorrem de forma consolidada em outras áreas mais conhecidas (como a indústria médica e a tabagista) e na área da alimentação e nutrição.

No decorrer dos capítulos ela cita diversos trechos de documentos, desde 1940, mostrando como as empresas lidam com a relação pesquisa científica X pesquisa de marketing; como as pessoas NÃO percebem que os presentinhos e brindes influenciam as decisões; as diversas reviravoltas dos diferentes comitês de nutrição… Nos capítulos finais, descreve como podemos nos atentar a essas influências, de forma a tentar minimizar esse impacto da indústria sobre nossa decisão de consumo.

Te dizer que achei o livro um cadinho arrastado; se você não é da área ou não tem interesse direto no assunto, pode achar um tanto chato. Não sei se é pelo assunto já ser meio repisado para mim, mas eu me vi me obrigando a concluir a leitura, em certos momentos.

O mais legal do livro, na minha opinião, foi um capítulo incluído no final, sobre a situação brasileira da área. A linguagem do autor é mais agradável, e o reflexo da nossa realidade me fez pegar mais empatia pela ideia. O livro se valeu naquele capítulo, rsrs!

Leia, mas tenha paciência. Se você tem interesse no assunto, recomendo mais o “Manifesto pela comida” do Michael Pollan, ou o “Sal, açúcar, gordura”, do Michael Moss, onde ele destrincha como a indústria usa esses três ingredientes nos produtos industrializados para fazer você se viciar (sim, viciar). A linguagem é mais agradável, acessível, e as informações mais interessantes ao público em geral (não-pesquisadores da área).

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