Comprar livros baratos e exploração na Amazon

Onde/como/pq comprar livros sem ser na Amazon?

Você já parou para pensar POR QUE a Amazon consegue vender alguns livros tão, tão, baratos, muito abaixo dos preços de mercado, e muito mais barato que as próprias editoras vendem?

Você já ouvir falar de “mercado predatório”? Pois é.

Eu acho engraçado que é só falar disso que as pessoas saem com os dedos nos ouvidos, os olhos fechados e cantando “LÁLÁLÁLÁLÁ!!!!” bem alto.

Eu sei, gente, eu também gosto de livros baratos. Para que pagar X num site de editora, que ainda vai me cobrar frete, se eu posso pagar X em 4 livros na Amazon, e ainda receber o livro de graça? Também me faz torcer o pâncreas ver aquele título que normalmente custa R$55 ser vendido a R$25, e eu fico louca para colocar aquele exemplar na minha estante (e ainda falar pros outros “foi baratíssimo!!”).

Mas vamos usar o cérebro dois segundos? Mesmo que você escolha continuar consumindo lá na lojona do cara mais rico, não é melhor você escolher SABENDO? Eu sei que tem gente que prefere não saber. É tipo quem come carne falar “eu prefiro não ver o que fazem nos abatedouros, porque não quero ficar com pena”. Eu ouço muito isso também. Mas você PREFERIR ficar no escuro é uma atitude covarde, viu? Coragem é você saber como funciona a coisa e ainda assim bancar suas decisões.

Mas vamos lá, uma explicação rápida sobre o tema desse post:

Tem um texto estupendo aqui que demonstra, com vários links para as reportagens originais, como os funcionários da Amazon são tratados. Vou falar rapidamente da parte que ninguém quer ler: vocês sabem que a Amazon trata mal seus funcionários, certo? Trabalhos em turnos dobrados, pressão psicológica, pagamento mínimo. Na pandemia, os gerentes de estoque não deram o suporte de EPIs necessário, convocaram funcionários com febre, ameaçaram demitir quem não fosse (aiai o exército de reserva do sistema capitalista…).

A Editora Elefante publicou ano passado um texto ótimo com a explicação do porque um dos seus livros mais vendidos tem preço de capa R$60 e a Amazon vende por R$40. Por favor, leiam. E também explica porque, mesmo com essa concorrência desleal, as editoras não conseguem impedir seus livros de estarem disponíveis lá.

Se você (como eu!) tem um kindle, você sabe que os livros digitais são comprados através da plataforma. Meio que não tem jeito – as próprias editoras que vendem e-books linkam a Amazon em suas páginas. O formato de leitura do kindle é o que chamamos de “proprietário”, ou seja, tem dono. E o dono é a Amazon. Se você tentar ler outro formato, tem que passar por um conversor para .mobi (e nem sempre a conversão fica boa, né? já tentei algumas vezes e olha… pode ficar uma meleca).

Então o que a gente pode fazer? O cara mais rico do mundo tá a caminho de ser o primeiro trilionário ocidental, a gente enchendo o bolso dele de dinheiro, os funcionários se ferrando para dar conta e não encherem a fila de desempregados…

Bom, vocês eu não sei, mas vou te dizer o que EU tenho tentado fazer:

1. Só comprar os livros que eu quero ler AGORA. Sim, nós temos mania de ver aquele livro em promoção e pensar “putz, nunca mais, preciso comprar JÁ!”. Mas vamos considerar: qual é a possibilidade dele chegar na sua casa e você ler no mesmo momento? Geralmente ele vai para uma lista de leituras, às vezes se perde na estante e você vai ler 2 anos depois. Ao invés de comprar mais barato porque está na promoção, eu compro os livros que tenho interesse HOJE, pelo preço de capa, e direto das editoras ou livrarias menores.

Pq? Se eu tenho tanto interesse na leitura imediata, eu vou pagar o preço justo sem reclamar. Se for só pra aproveitar promoção, eu sei que é meu consumismo e fetichismo falando mais alto.

2. Lembrar de valores justos, como meu salário. Você trabalha como um condenado e recebe X – e ainda acha que X é pouco para tudo o que você faz. Seu chefe vira pra você e fala “olha, eu vou te pagar X-20%, porque aquele trabalhador ali” – e aponta para alguém enorme, com o triplo do seu tamanho e força – “diz que faz por menos, sabe como é, se você quiser ficar, vai ter que receber menos também”. Só que o “menos”, além de não ser justo, não cobre suas despesas mínimas. O que você faz? Aceita o menos e sai cortando despesas, ou vai embora?
Esse é o tipo de dilema que livrarias independentes passam com a concorrência da Amazon. Não é que elas não gostariam de vender mais barato para nós – mas elas não podem. Não vai cobrir o valor de custo de permanecerem abertas, pagar funcionários. A mesma coisa para editoras que vendem os livros direto em seus sites.

3. Apoiar o comércio local. Especialmente nessa pandemia, estamos vendo os comércios fechando – mas essa situação, com as livrarias, já faz TEEEEEMPO. Quantas cidades no país não possuem livrarias (nem das grandes redes, que estão fechando por conta de dívidas e do que foi feito do mercado do livro)? Você gosta de passear e encontrar uma livraria na rua, mas quantas vezes já entrou na loja, pegou um livro, olhou o preço, falou para si mesmo “na Amazon é mais barato”, e saiu sem comprar nada? Pense nisso. Compre naquela livraria, mesmo que esteja dez reais mais caro. Compre pelo preço de capa. Dê dinheiro para aquele cara que vai gastar na padaria da esquina, e fazer o dinheiro circular na sua comunidade – e não pro bolso do Bezos.

4. Estudante: muitos livros para pouco dinheiro: É óbvio que se você precisa comprar 10 livros para a faculdade e é estudante, você PRECISA procurar o mais barato possível – mas que tal tentar o Estante Virtual? Vende livros (novos e usados) de todo o país, direto dos sebos e livrarias. Há alternativas. Consultar se a biblioteca de onde você estuda não oferece os livros (e hoje muitas têm assinatura digital, então você não vai precisar se estapear pelos exemplares sempre que precisar). A maioria dos livros só são usados no período em questão (eu sei do que tô falando, bibliotecária universitária, lembra?). E se não houver outro jeito, e tiver que comprar na Amazon… ok, contanto que haja consciência – eu sei bem como é, acreditem.

5. Comprar direto das editoras. Muitas editoras tem suas próprias lojas virtuais. Algumas fazem promoções regulares, outras oferecem cupons de desconto, descontos para estudantes e professores, para compras em grupo. Alguns podcasts de áreas específicas (história, sociologia) possuem links para compra nesses locais – você paga o valor de capa cheio, mas uma porcentagem vai para o apoio desse veículo que você curte escutar. Vale a pena dar uma fuçada para ver o que você acha.

A título de curiosidade, as que eu costumo comprar, atualmente – tem um post sobre minhas editoras favoritas aqui, com links, inclusive.

Além de pensar no seu bolso, pense no sistema. Pense em quem você apoia. Nessa sociedade capitalista, onde seu poder está mais no você-consumidor do que no você-cidadão (desculpa falar a verdade, mas é isso… e eu também não gosto, tá?), o local onde você decide gastar dinheiro é como um voto. Para quem você anda dando o seu?

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