Capa do livro Big Tech, de Evgeny Morozov,

Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política, Evgeny Morozov

Título: Big Tech: a ascensão dos dados e a morte da política

Autor: Evgeny Morozov

Editora: Ubu

Páginas: 192 p., Coleção Exit

Ano: 2018

Formato da leitura: Livro físico

Sinopse: Reunião dos principais artigos de um dos mais influentes especialistas em tecnologia e em internet do mundo, Evgeny Morozov. Big tech problematiza a lógica do chamado “solucionismo” tecnológico, que enxerga a tecnologia como panaceia para problemas que instituições falharam em resolver. O livro alerta que a internet e plataformas tecnológicas baseadas em dados pessoais (Airbnb, Uber, Facebook e Whatsapp, para dar alguns exemplos), diferente do que se costuma acreditar, podem servir de ferramenta contrária à democracia, dependendo da maneira como são usadas. Extremamente atual, abordando os efeitos positivos e negativos do universo automatizado em que vivemos, este livro faz parte da coleção Exit e comporta os textos essenciais do autor, inédito em português.

Opinião: Já parou para pensar por que os principais serviços online que você utiliza são gratuitos? Por que o gmail não te cobra – e ainda disponibiliza 15g de armazenamento grátis? Ou porque o Facebook “é tão legal” ou o Instagram “é minha rede favorita!” e são todos DE GRAÇA?

Diz a velha máxima que, especialmente no século XXI, se você não está pagando por um serviço, é porque você não é o cliente, é a mercadoria. E sim, caro leitor, isso é uma imensa verdade.

Você sabe que o algoritmo do gmail lê suas mensagens, certo? E que o Facebook vende seus dados (inclusive para empresas que manipulam coisas importantíssimas, como comportamento de eleitores através de marketing de rebanho) – recomendo muito o documentário “Privacidade hackeada”, da Netflix, sério, ASSISTAM.

“Ah, Paulla, mas meu e-mail não tem nada demais, e daí que eles lêem?”. Primeiro, você não é o umbigo do mundo. Já parou para pensar em política ditatorial? Em usarem suas informações contra você? E se alguém que não gosta de você te envia um e-mail cheio de palavras chaves falsas para ser rastreado pela inteligencia governamental e te incriminar? Como você vai provar que focinho de porco não é tomada?

Se você acha que eu tô indo longe demais na divagação, deveria lembrar do caso Snowden, ali em 2012/13. Ele só expôs que o serviço de inteligência americano compra dados de empresas e acessa tudo que falamos, ouvimos, escrevemos (e apesar de eu acha a inteligência brasileira beeem fraquinha, isso não quer dizer que ela também não tenha capacidade para fazê-lo), e usa isso sem autorização.

Morozov escreveu uma frase que achei o cerne da questão: o problema do comércio de dado permanecerá enquanto as pessoas não entenderem exatamente quais são os problemas éticos sobre os motivos de isso ser RUIM. Eu, como cientista da informação, fico me COÇANDO quando tento explicar e as pessoas não querem/não conseguem entender. Imagina explicar isso para milhares de pessoas?? A empresa ainda tem que escrever no frasco de água sanitária que não é para beber, gente!

Mas a ideia do livro, e isso é o mais interessante, não é negar nem renunciar à tecnologia – até porque, como sabemos, quem fizer isso se tornará obsoleto, não dá para lutar contra tudo que é “tecnológico” na vida – mas pensar em formas de aplicá-la que não interfiram em nossos direitos democráticos, e na própria noção de democracia. É entender como funciona para poder transformá-la em ferramenta útil, e não em controle. Em tempos cada vez mais “black mirror”, onde reputação é moeda, algoritmos decidem quase tudo e relações de poder são estabelecidas por consumo informacional, como podemos nos respaldar?

São dez artigos, uns maiores, uns bem compactos, que abordam temas como quais são as empresas, qual é a política do vale do silício, porque ela afeta a política (e como), quais mudanças já estão em andamento, e as consequências possíveis e as já visíveis da nossa política de dados atual.

Se for para falar de críticas sobre o livro, tenho uma: como é uma coletânea de artigos publicados, por vezes eu sinto que o autor está escrevendo mais do mesmo. Mas tem ideias que só sendo repisadas para serem compreendidas, então acho válido ainda assim.

Não é uma leitura leve tipo “passeio no parque”, mas recomendo fortemente. Inclusive, se você não tem tanta experiência no assunto, recomendo a leitura do capítulo “Big Tech: pós-capitalismo” (p. 144) antes dos outros; é um resumo bem prático de como essas empresas ganham dinheiro, influenciam a economia e usam seus dados.

A privacidade concedida por um aplicativo engraçadinho – a um custo de apenas cinco euros por mês! – é um tipo de privacidade muito distinto daquele garantido por um sistema de direitos constitucionais. O primeiro é um exemplo de “privacidade como serviço”; este último é a “privacidade como direito”.

p.177-8

Enquanto os primeiro capítulos colocam as ideias do autor, explicam como algumas coisas funcionam e debatem o que tem sido feito até então, os últimos três capítulos trazem respostas e possíveis soluções para os problemas levantados.

A passada máxima “informação é poder” nunca esteve tão palpável, e é bom saber o que fazem com as NOSSAS informações.

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