Resenha do livro O velho está morrendo e o novo não pode nascer, de Nancy Fraser

O velho está morrendo e o novo não pode nascer, Nancy Fraser

Título: O velho está morrendo e o novo não pode nascer [The old is dying and the new cannot be born]

Autora: Nancy Fraser

Editora: Autonomia Literária

Páginas: 92 p.

Ano: 2020 (1ª ed. 2019)

Formato da leitura: Livro físico

Sinopse: O neoliberalismo está se fragmentando, mas o que surgirá entre seus cacos? A principal teórica política feminista do século XXI, Nancy Fraser, disseca a atual crise do neoliberalismo e argumenta como poderíamos arrancar novos futuros de suas ruínas. O colapso político, ecológico, econômico e social global – simbolizado pela eleição de Trump, Bolsonaro e outros governantes de extrema-direita que dizem ser antiestablishment, embora façam parte dele – destruiu a fé de que o capitalismo neoliberal pode beneficiar a maioria do povo dentro da democracia. Fraser explora como essa fé foi construída no final do século XX, equilibrando dois princípios centrais: reconhecimento (quem merece direitos) e distribuição (quem merece renda). Quando eles começam a se desgastar com as sucessivas crises nas primeiras décadas do século, novas formas de populismo surgem à esquerda, para os 99%, e à direita, para o 1%. Fraser argumenta que esses são sintomas da maior crise de hegemonia do neoliberalismo, um momento em que, como Gramsci disse, “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”. O livro é acompanhado de uma belíssima entrevista do editor da revista Jacobin, Bhaskar Sunkara, com Fraser, que argumenta termos a oportunidade de transformar o populismo progressista em uma força social emancipatória, podendo, assim, reivindicar uma nova hegemonia.

Opinião: Quando eu falo que sou anticapitalista, as pessoas me olham feio. “Mas você é contra comprar coisas boas?”; “É anticapitalista mas tem celular?”; “Se não for o capitalismo vai ser o que? você quer vestir cinza igual era na URSS?”. Sim, são as mais comuns que escuto.

Mas você já parou para pensar o que É o capitalismo, além do “posso comprar o que eu quiser”? Como ele influencia coisas importantes como o acesso à saúde, o estímulo à desigualdade social, os impactos ambientais?

Nesse sentido, a Nancy arrasa. É um livrinho pequeno, mas muito explicativo!

[Ps. um aviso: acho que escrevi com mais palavras acadêmicas do que o costume; se algum dos leitores tiver pouco acostumado, pode ser uma leitura um tanto diferente. Mas, ao final, vou tentar colocar em palavras mais simples, então se achar o texto difícil ou chato, não desista dele :)]

É dividido em três partes: uma introdução de um acadêmico brasileiro, o escrito da Nancy Fraser em si, e ao final, uma entrevista da Nancy com o editor da revista Jacobin americana. Pela primeira vez em muito tempo, li um livro onde todas as partes realmente são importantes e se complementam lindamente!

O título é uma frase de Gramsci, e quer dizer que vivemos em um momento de suspensão, interregno: as atuais estruturas políticas não estão funcionando, as pessoas confiam cada vez menos nelas; mas ainda não conseguimos construir uma alternativa viável e plausível para colocar em seu lugar. Assim, as velhas ideias não morrem, pois não conseguimos substituí-las – e exatamente por isso, vão se arrastando, não dando espaço (ou fazendo explodir a necessidade) de novas práticas a substituírem.

Na introdução, Victor Marques explica, contextualiza e disseca os conceitos que a autora emprega na parte principal. É como um grande glossário, e te ajuda a ficar menos perdido caso você não tenha o costume de acompanhar a discussão política em que ela nos coloca.

Nancy aborda a situação histórica dos Estados Unidos (e do mundo), mostrando como foi construída a atual conjuntura, quais foram os fatores que, acumulados, nos trouxeram ao que ela denomina “crise hegemônica” como ela está posta atualmente: começando pelo que é de fato hegemonia, como o capitalismo neoliberal se ergueu nas pernas, como o neoliberalismo absorveu e se uniu com outras vertentes políticas. Como ideias teoricamente tão antagônicas quanto “neoliberalismo” e “progressismo” se viram juntas num pacote político tão “vendável”? Qual a diferença desse neoliberalismo para o tradicional ou o radical e o reacionário?

Hegemonia é o termo que ele [Gramsci] usa para explicar o processo pelo qual uma classe dominante faz com que sua dominação pareça natural ao infiltrar os pressupostos de sua própria visão de mundo como sendo o senso comum da sociedade p.35

p.35

Explicação que achei particularmente interessante foi como o neoliberalismo cooptou as pautas progressistas, elevando conceitos como meritocracia, em detrimento da real distribuição igualitária de direitos (cidadania)

Dois pontos que acho importante destacar: a explicação que o capitalismo não é apenas uma forma econômica (como alguns colocam), mas todo um sistema social que é simultaneamente causa e consequência; e como o neoliberalismo pode ser cooptado por políticos tanto de esquerda quanto de direita (e a forma como eles fazem isso).

A terceira parte, e não menos importante, é a entrevista da Nancy para Bhaskar. A princípio pensei “aff, será que é falação?”, mas não. É um complemento exato para as duas outras partes do livro. As questões colocadas pelo entrevistador fazem Nancy aprofundar algumas explicações que podem ter ficado vagas no texto. É como se fosse uma aula, e Bhaskar faz as vezes do aluno que não compreendeu direito e está pedindo explicações para elucidar um ponto – ou seja, o papel que seria nosso.

Tecla SAP: o que eu tô querendo dizer com isso tudo?

O que Nancy faz nesse livro é tentar explicar, de forma histórica e sociológica, como nós chegamos a ter os políticos (e as políticas!) que temos hoje. Os motivos por trás das crises, o porque do capitalismo não ser sustentável sem elas, porque o conceito de meritocracia não funciona bem em uma sociedade diversa e com preconceitos tão arraigados quanto as nossas.

E quais as opções que ela nos dá? Na verdade, ela não define UMA, e é exatamente o título desse livro. Ainda não há uma política forte elaborada para resolver essa questão, até pelo fato das pessoas não acreditarem que há opção palatável ao capitalismo. “Mas não tem como ser outra coisa!”.

Não acho que nenhuma delas [alternativas atuais ao neoliberalismo] tenha um verdadeiro projeto elaborado para o tipo de reestruturação econômica e social fundamental de que precisaríamos para concretizar os ideais de seguridade social, trabalho bem remunerado, pleno emprego, bem-estar social de qualidade e suporte familiar e assim por diante.

p.89

Mas precisamos pensar JUNTOS na alternativa. O sistema tem a tendência de se desestabilizar ao invés de se auto-gerir. Precisamos nos mobilizar, parar de fugir da política (eu sempre repito, TUDO é política, desde o preço do seu pãozinho francês), ser solidários, ver companheiros de luta, e não apenas inimigos. Resumindo, colocar a cabeça pra funcionar e deixar de ser massa de manobra pra político inescrupuloso. Certo? Leiam esse livro.

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