Minha estante amarela, com plantas

2020 e “E as leituras?”

Não preciso dizer que 2020 fudeu a cabeça da gente, certo? Imagino que isso seja um ponto comum. Se você é uma das pessoas gratiluz que andam dizendo que “2020 foi um ponto de transição, mas ótimo para quem soube aproveitar” ou “crescemos muito esse ano!”, por favor, GUARDE PARA VOCÊ.

2020 foi uma merda. Teve agrotóxico, queimada, seca, gente passando fome, gente perdendo emprego, gente morrendo às pencas. O fato de eu estar em casa, segura, com meu salário na conta, sem problema para comprar álcool gel e papel higiênico, só deixa mais evidente os privilégios que tenho.

Então sim, 2020 foi um desgraçamento pra cabeça, em geral. Mesmo com todos os privilégios, ou eu estava preocupada genuinamente com quem não os tem, e tentando ajudar de alguma forma; ou tendo crises de ansiedade sobre nosso futuro próximo, sonhando com os livros distópicos, sem saber o que fazer dentro de casa como leão enjaulado.

DITO ISSO:

Sim, fui abordada pelas pessoas que acham que a pandemia foi “uma oportunidade de crescimento” (affff). Vieram me perguntar “quantos cursos eu fiz”, “o que eu aprendi”, “quanto eu li”. Como se isso fossem métricas confiáveis de que a pessoa estava bem, lidando maravilhosamente com esse mar de cocô em que estamos enfiados.

Não preciso apontar os trocentos erros nesse raciocínio, mas deixa esclarecer apenas dois: as pessoas lidam com pressão de formas diferentes; e estar normal num mundo/sociedade doente fala mais de você do que parece.

Sim, eu li pra cacete. Li 121 livros até agora, e contando. Li sociologia, literatura leve para tentar distrair, teoria, drama. Nem todos constam na lista de leitura pq, né? a cabeça pra atualizar direitinho nem existe. Eu fiz alguns cursos online. Assisti cerca de 80 filmes (não vejo séries). Mas esses números não dizem nada – se dizem, o que falam é que eu estava desesperada por escapismo. Ao contrário de alguns colegas que travaram e não conseguiram ler nada, eu lia para distrair, para escapar, para parar de pensar.

Então, por favor, não façam da pandemia uma competição de produtividade, tá ficando feio isso. Importante esse ano para mim está sendo terminar viva e sã (ou quase). Se você não está terminando o ano falando 4 idiomas, tendo lido Guerra e Paz / A montanha mágica, com duas pós graduações e oito artigos em revistas qualis A1… primeiro, bem vinde ao clube; segundo, só pelo fato de você estar vive e lendo isso, já é uma PUTA VITÓRIA.

Sinceramente, ano que vem não vai ser melhor; e nem é meu pessimismo com a humanidade falando, são os dados. Quando acabar a pandemia vai sobrar uma economia em frangalhos, a saúde do país sucateada e implodida, os ultraconservadores voltando a queimar tudo fingindo que é progresso. Então não se cobre. Permaneça vive e isso é lucro.

(PS. esse post foi escrito como desabafo, pq essa semana eu ouvi tanta besteira, me perguntaram tanta porcaria… só falta eu passar o link do post pra quem falou comigo, rsrsrs)

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