Livro Feminismo para os 99% ao lado de uma palmerinha e de um acction figure

Feminismo para os 99%: um Manifesto

Título: Feminismo para os 99%: um manifesto (Feminism for the 99 percent: a manifesto)

Autoras: Cinzia Arruzza (Itália), Tithi Bhattachrya (Índia), Nancy Fraser (EUA)

Editora: Boitempo

Ano: 2019 (1ª ed. 2019)

Páginas: 128 p.

Formato: Papel

Sinopse: Moradia inacessível, salários precários, saúde pública, mudanças climáticas não são temas comuns no debate público feminista. Mas não seriam essas as questões que mais afetam a esmagadora maioria das mulheres em todo o mundo? Inspiradas pela erupção global de uma nova primavera feminista, Cinzia Arruzza, Tithi Bhattacharya e Nancy Fraser, organizadoras da Greve Internacional das Mulheres (Dia sem mulher), lançam um manifesto potente sobre a necessidade de um feminismo anticapitalista, antirracista, antiLGBTfóbico e indissociável da perspectiva ecológica do bem viver. Feminismo para os 99% é sobre um feminismo urgente, que não se contenta com a representatividade das mulheres nos altos escalões das corporações. O Manifesto feminista faz parte de um movimento global e será lançado no 8 de Março de 2019 em diversos países, como Itália, França, Espanha, Estados Unidos, Inglaterra, Argentina e Suécia. A edição brasileira conta com a participação de Talíria Petrone, deputada federal e militante feminista negra, que assina o prefácio, e Joênia Wapichana, primeira mulher indígena a ser eleita deputada federal, advogada, militante das causas indígenas e dos direitos humanos, no texto de orelha.

Opinião: Na época do lançamento, foi um dos livros mais falados. Pequeno (128 páginas, com letras e margens grandes), a leitura é rápida – mas o conteúdo é mais complexo do que parece. Dividido em Onze Teses, elas querem demonstrar porquê a luta feminista não pode ser desvinculada de outras, sob o risco de se perder (como se perde; o feminismo liberal tá aí de exemplo).

Resumidamente, se o seu feminismo não for contra os preconceitos de raça, classe, xenofobia, além de estar ciente das questões ambientais, de gênero e dos problemas advindos da reprodução social, você ainda estará apoiando, de alguma forma, as bases do sistema capitalista que estimula essas desigualdades.

Vivemos uma crise da sociedade como um todo. Absolutamente não restrita ao setor financeiro, é ao mesmo tempo uma crise da economia, da ecologia, da política e do “cuidado”

p. 45

Antes de sair por aí resmungando “Ain, mas tudo vocês culpam o capitalismo, bando de comunista”, eu te recomendo a leitura do livro, certo? Você pode não perceber como as coisas estão entrelaçadas, mas isso não quer dizer que não estejam… ou você é a criança que acredita que tapando os olhos e não vendo ninguém, está invisível?

Cada tese “meio que” expõe um aspecto da luta por um sistema melhor, mas não exclusivamente, pois eles são tão entrelaçados que não dá para tratar totalmente em separado. Como falar da crise ambiental provocada por um sistema predatório, que retira da natureza sem pensar em reposição/detritos, sem comentar que o sistema político atual foi criado para permitir essa liberdade, empoderando empresas e subjugando os Estados? Como falar da questão de trabalho feminino quando a carga de cuidar da família ainda é carregada em grande parte por mulheres que cumprem jornada dupla? Como sequer pensar em liberdade de gênero quando até se tenta criar leis protetivas, mas na prática continuam não empregando pessoas trans, ou pessoas não-monogâmicas continuam sendo escorraçadas socialmente por sua opção fora do convencional?

A ideia é que reconheçamos e utilizemos as diferenças de cada grupo como armas, como força-motriz para a luta em conjunto. Não adianta tratar todas as mulheres como iguais, quando sabemos, estatisticamente inclusive, que as mulheres negras de classes sociais mais baixas são as mais assassinadas, as com os salários mais baixos, com os empregos mais periféricos. A homogeneização é um desserviço, não uma ajuda. A visão interseccional, que perpassa as diferentes camadas, é não apenas desejável como necessária.

Uma frase que me pegou, já no finalzinho do livro foi “[…] Estados que, no passado, alegaram ser democráticos falharam de forma recorrente em enfrentar problemas prementes […] (p.87) – Eu só consigo pensar na pachorra estadunidense, que sempre se orgulhou de ser o bastião democrático do ocidente (há controvérsias, estude História e Sociologia, por favor) e nessa última semana teve o símbolo maior de sua “democracia” invadido por grupos extremistas facistóides para impedir a pose de um presidente eleito, pasmem, democraticamente 😛

A ideia do livro é efetivamente alcançar todas as lutas, os 99%. Ah, e para quem não entendeu, os 1% comentados são os bilionários e trilionários, realmente donos dos meios de produção, os que podem ficar sem trabalhar o resto da vida e ter dinheiro para 80 vidas. Você, riquinho dono de uma Mercedes (paga em 36X) e empregado, mesmo que muito bem pago, não é parte do 1%, sinto informar.

Recomendo, para todes.

Recomendações: As meninas do Grifa Podcast gravaram dois episódios sobre o livro, (episódio 003, partes 1 e 2), que você pode achar aqui, no site, ou nos seus agregadores de podcast.

A Nancy escreveu outro livrinho curto e maravilhoso sobre Capitalismo, que já foi comentado aqui no blog, dá uma olhada.

E para quem quer entender melhor a visão desses cruzamentos e descruzamentos, recomendo o livro “O que é Interseccionalidade”, da Carla Akotirene – outro pequeno em tamanho, mas poderoso em ideias.

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