As verdadeiras riquezas, Kauother Adimi

Título: As verdadeiras riquezas (Nos richesses)

Autora: Kauother Adimi (Argélia)

Editora: Rádio Londres

Ano: 2019 (1ª ed. 2017)

Páginas: 128 p.

Formato: Papel

Sinopse: Ryad, um jovem e indolente estudante universitário parisiense de 20 anos, chega a Argel com o objetivo de completar seu estágio, que consiste em esvaziar a lendária livraria As Verdadeiras Riquezas e em se desfazer de todos os livros. Ryad não gosta de leitura e quase tem medo da escrita; para ele, os livros são apenas uma fonte de ácaros e poeira. Dessa forma, ele encara essa experiência como uma desagradável tarefa que lhe é imposta. Contudo, uma vez instalado na livraria, o jovem, inevitavelmente, mergulha na atmosfera imensamente evocativa do lugar e, por meio dos livros com páginas amareladas, cujas pilhas abarrotam o minúsculo espaço, e das inúmeras fotos desbotadas ainda penduradas nas paredes, descobre aos poucos a excepcional experiência humana de Edmond Charlot, que, em 1936, aos vinte anos, montou a livraria e, pouco mais tarde, as Éditions Charlot. O local funcionava como um ponto de encontro de um extraordinário grupo de aspirantes escritores que incluía, entre outros, Albert Camus, Jean Giono, Saint-Exupéry e André Gide. Nessa experiencia, Ryad é acompanhado pelo velho Abdallah, o último livreiro de As Verdadeiras Riquezas, uma espécie de guia espiritual que se recusa a deixar o lugar. Essa história, uma combinação de eventos reais e invenção literária, é contada através de uma série de saltos entre passado e presente, usando os diários de Edmond Charlot como fio condutor. O romance é a história de uma paixão infinita pela literatura que se desenvolveu ao longo de eventos históricos e dramáticos, como a Segunda Guerra Mundial, o colonialismo e a guerra de independência da Argélia. As verdadeiras riquezas é um livro para quem ama os livros.

Opinião:

(PS. Essa foi uma das resenhas mais difíceis dos últimos tempos – quase dois meses na pasta de rascunhos. Simplesmente não sei o que escrever desse livro sem dar spoiler, sem falar demais. Não sei, travei, não sai. Mas segue alguma anotação, apenas para não passar em branco)

Das gratas surpresas da Rádio Londres (sério, que curadoria, pqp), da única compra que fiz na black friday, veio esse livrinho. Não tinha ouvido falar dele, mas a história me interessou. Como uma bibliotecária não se interessaria pela história real de uma livraria/biblioteca, num contexto socio-histórico tão peculiar quanto o da Argélia?

Argélia foi colonizada pela França, com todas as violências decorrentes da colonização (sobre isso, recomendo MUITO a leitura do Aimé Césaire, resenha aqui).

Ali a Argélia ali, ó

A Kauother (que eu pesquisei para saber se homem ou mulher, pois: nome estrangeiro desconhecido) fez um trabalho ímpar de pesquisa histórica mesclada à ficção. O livro se passa entre 1930 e 2017, e tem 3 personagens principais que alteram o ponto de vista da narração: Edmond Charlot, criador da livraria; Abdallah, homem que cuidou da livraria por quase 20 anos; e Ryad, jovem contratado para fechar a livraria. Charlot abriu sua livraria e simultaneamente sua editora, e viria a publicar alguns dos autores clássicos de língua francesa, como Camus e Gides.

Pelos olhos de Charlot acompanhamos a dificuldade em manter um local de cultura (em ambos os países, inclusive); conseguimos ver os desenvolvimentos históricos argelinos, desde a entrada na segunda guerra, em apoio à França, até a independência – sangrenta – do país em 1961. Abdallah nos apresenta a história do homem comum da Argélia – com estudos dificultados pelas políticas separatistas locais, perda de parentes, desesperança, mas algum sentimento de comunidade. E Ryad é a modernidade – mora na França, não gosta de ler, não gosta Argélia, e aceita a tarefa de desmantelar a livraria como forma de conseguir a assinatura em seu estágio curricular obrigatório do curso de Engenharia. O novo dono do local sabe que ninguém da área aceitará desfazer o espaço, tão caro à população (antes de fechar, a livraria ainda virou biblioteca municipal) – e Ryad vira “bode expiatório”.

Então acompanhamos os personagens, suas dores – e MINHAS dores… porque ver um espaço de cultura local se desfazendo é sempre uma dor imensa para mim. E é interessante ler pessoas com relações tão distintas com os livros: enquanto um idolatra, outro gosta, mas não consome, e o terceiro NEM gosta. Eu nunca consegui processar direito a ideia de uma vida sem livros, e quando alguém fala “você leu esse mês o que eu li na minha vida” eu só consigo me perguntar “Como???”. Não, não estou entrando aqui nas extensas discussões sobre incentivo à leitura no país e afins; estou falando do sentimento pessoal de falta quando fico sem um livro. Um buraco, um vazio, faltando história, imaginação, poesia, companhia.

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