Estante de ferro, amarela, com livros e plantas, uma televisão no meio

Ler pra quê #2

Quem me conhece minimamente sabe que eu leio em doses cavalares. Não para disputar, não para ganhar um prêmio de “oh, a leitora mais leitora do prédio”, mas porque a leitura é minha válvula de escape. Com ela eu fujo da realidade (e por vezes dos afazeres domésticos, rsrs), do mundo fudido, da vida. Eu mergulho por três, quatro, às vezes seis horas seguidas, para sair do outro lado alimentada.

Mas como nem tudo que eu leio é “mundo cor de rosa” ou ficção científica, eu também levo muita porrada lendo, especialmente teoria social. Os livros da Editora Elefante estão ocupando uma prateleira inteira da minha estante, sozinhos, logo acima da prateleira da Boitempo. E mesmo assim eu percebei que tenho escolhido o caminho mais fácil das leituras: muita chick lit, muito livro adolescente, porque já tava pesado demais para ler coisas que me fizessem chorar.

E esse mês, pela primeira vez desde o início da pandemia, eu quase não li. Enjoei. Nada me segurou, nada me apeteceu, as leituras fáceis ficaram rasas demais. Eu vivi, saí um pouco e vi gente desde que essa loucura começou, fui ouvir música na rua, entrei em livraria física.

Eu tô passando por um período de identificação interna bem puxado, a carta “O Diabo” do tarô me falando que uma hora eu tenho que encarar minhas sombras e abraçar essa parte da gente que nem sempre é muito legal. Essa parte que vive na cabeça e xinga gente na rua, e quer dar o dedo do meio pro colega de trabalho, e quer pegar o pedaço maior da pizza que tá dividindo sem perguntar se o marido se importa.

E o que isso tem com o blog e com as leituras? Não que tenha que ter alguma correlação, visto que eu sempre escrevi aqui o que eu quis – mas sim, tem (inclusive, podem reacostumar, porque tô sentindo falta de escrever, e vai acabar parando aqui, rsrsrs)

Eu precisava desse um ano de respiro, esse um ano de leitura leve (até falei disso aqui). E agora eu tô pronta para voltar. E isso tá vindo junto com minhas decisões conscientes desse encontro comigo mesma que têm sido os últimos dois meses.

Eu quero mais significado, quero mais profundidade, o comprometimento comigo que às vezes requer mais disciplina que força de vontade. Você também tem mania de fazer pelos outros mas não por você? Arrumar a casa quando tem visita, mas se não tem, tá lá a poeira rolando pela casa. Pensar em comprar aquele vinho pra quando o paquera (desculpa, não consigo me entender com “crush”) tá pra vir – mas nunca só pra você?

Eu senti falta dos livros dos quais eu tava fugindo. Escritoras que falam das verdades duras de não privilegiados, como a Buchi Emecheta, a Mukasonga; autores nacionais falando das dores sertanejas, como o Itamar Vieira Junior, literatura periférica como o Ferréz. Livros que doem, que marcam, que incomodam, como os da Han Kang e Salem Levy. Distopias doloridas como as da Octavia Butler. Tem tantos me esperando nas minhas estantes, e que doía demais sequer pensar em ler, e estão me esperando pacientemente.

E juntando minha sede por leitura com minha sede por VIDA, eu me peguei pensando em quantos autores menores eu ainda quero ler, em quantos países tem gente que escreve e eu não conheço, em procurar autores invisibilizados. Será que consigo encontrar uma escritora do Butão? Da Libéria? Aquele monte de editoras independentes e pequenas que acompanhei no instagram, com autores menos conhecidos, será que acho? Autores trans?

Junta isso com minha vontade de comer, de cozinhar, de degustar, de tomar um vinho com os que amo, de estar presente, de cuidar das plantas, de aprender a fazer chás, costurar (ok, descrevi uma senhorinha de 70 anos), e vai se formando uma nova fase. Sendo sincera, já tô me preparando psicologicamente para outra possível onda de corona vindo, mais isolamento, mais tristeza.

E é por isso mesmo que preciso ressignificar. A vida pode ser tão curta, pode acabar ali na esquina. Eu ainda acho que vou ver o mundo como conhecemos acabar e definhar (isso é outra história, alimentada pelas infinitas ficções científicas que já li) – e quero ter boas lembranças disso aqui, por pior que “isso aqui” às vezes seja para os que não têm privilégios.

Respirar. Ler. Ler pra rir e pra chorar, pra aprender alguma coisa, pra ter empatia, pra viajar. Vamos ver se essa energia toda se reflete aqui 🙂

Ps. eu já falei um pouco sobre pq lemos, tá aqui, ó.

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