Mão segurando o Kindle com a capa do livro A Extinção das Abelhas, de Natalia Borges Polesso - resenha

A extinção das abelhas, Natalia Borges Polesso

Título: A extinção das abelhas

Autora: Natalia Borges Polesso (Brasil)

Editora: Companhia das Letras

Ano: 2021

Páginas: 312 p.

Formato: Digital

Sinopse: “As pessoas vão embora, e isso é uma realidade.” Assim começa A extinção das abelhas, novo livro de Natalia Borges Polesso. Nele, conhecemos a história de Regina: depois de ser abandonada pela mãe, ela foi criada apenas pelo pai, que faleceu quando a garota começava a entrar na vida adulta. As vizinhas, Eugênia e Denise, cuidam dela como podem, oferecendo afeto, dinheiro e uma vida em família que lhe faz falta. O círculo se completa com Aline, filha do casal e amiga-irmã de Regina. Sua perspectiva de mudar de vida é diminuta. Ao ver um anúncio na internet sobre camgirls, Regina decide tentar a sorte. Então cobre a cabeça com uma máscara de gorila e encarna um lado seu que não conhecia. Ao se expor para desconhecidos na câmera e revolver os desejos e vergonhas desses homens, ela se defronta com os próprios sentimentos, fantasmas há muito enterrados em seu inconsciente. Ao criar um universo que é tão distópico quanto real, com uma galeria de personagens impressionantes que vão da tragicômica velhinha Dona Norma à corajosa Aline, a autora de Controle confirma seu domínio narrativo e constrói uma história sobre o colapso, mas também sobre salvação.

Opinião: Não é de hoje que eu me preparo psicologicamente pra algum tipo de apocalipse, e posso agradecer às minhas leituras muito preoces sobre o tema. “distopia” é um dos meus gêneros favoritos do mundo mundial – apesar de sempre ter ferrado um pouco minha cabeça.

Mas eu nunca achei que o cataclisma viria de um meteoro, ETs ou situações extremas imprevisíveis – sempre acreditei que o homem tá cavando sua cova. Que o sistema exploratório capitalista vai potencializar o esgotamento dos recursos de todos os tipos e isso vai acabar provocando alguma guerra mundial por água, comida ou algo semelhante.

Mas a Polesso conseguiu concretizar em palavras o que eu realmente acho que vai acontecer: vamos escorregar lentamente para um final no gerúndio. “Indo”. As coisas “vão indo, vão indo…” Sabe a história de matar o sapo na panela? Se vc coloca o sapo na água fervendo ele pula fora, mas se a água vai esquentando ele não percebe, até morrer? É isso

Sempre pensei que o Sol explodiria. Que um planeta colidiria com a Terra. QUe usinas nucleares explodiriam em sequência, num arranjo terrorista. Que mísseis seriam lançados sobre nós. Mas não. Foi um golpe. Pirotécnico. Mentiras elaboradas com consequências mundiais. Um mundo.

Parte 2, cap. 2

No livro, as coisas vão acontecendo, e como ela bem descreve, as pessoas acompanham o relógio da catástrofe e se indignam pelo Instagram usando o teclado em CAPS LOCK. Mas ninguém mexe um dedo, ninguém muda nada, as pessoas só vão acompanhando e indo.
A morte das abelhas foi só um dos sinais mais contundentes. E assim foi acabando comida, diminuindo água, os ricos conseguindo se locomover de carro e os pobres vivem em cidades-lixao. Assim, como uma Detroit do Robocop ou como o filme Elisium (se não viu nenhum dois dois, VEJE. Mas o Robocop antigo, viu?)

As descrições sociais dela poderiam ter saído diretamente do meu subconsciente. A primeira parte do livro é uma história encadeada, envolvendo diversas pessoas em torno de Regina.
A segunda, parte de notícias e situações que realmente aconteceram (como estupros coletivos no Oriente e desastres como Brumadinho e queimadas amazônicas) para desenvolver as situações – usadas de pano de fundo para a primeira parte da história. Uma construção fenomenal: li toda a primeira parte e na segunda os esclarecimentos foram provocando “Ah!”s E “Oh”s enquanto as peças iam encaixando.

Mãe, eu lembro que tu dizia pra lavar bem as frutas para tirar o veneno. Pois não adianta mais. Nem lavando. Tá tudo envenenado. Tá tudo desmatado pra criar gado, mas a carne é cara igual. Tem um monte de gente morando na rua. As coisas foram ficando muito ruins, muito rápido. Tem o presidente, que eu não sei se tu sabe quem é.

Parte 1, Cap. Mãe

As descrições políticas, lidas assim, num contexto ficcional, parecem tão ficção quanto pareceram à época em que ocorreram (de verdade). O fim do mundo como o conhecemos. O fim do mundo habitável aos humanos. “O colapso coloniza a política”

A terceira parte continua a primeira; depois da explicação de como o mundo chegou àquela situação apocalíptica, ela retoma alguns fios da narradora Regina e afins. Aí a gente percebe que esse lapso de explicações no meio do livro tem um motivo, e que do outro lado fica tudo diferente, uma nova fase da história.

Se você já está meio cagado das ideias, pode não ser um livro muito recomendável de se ler; apesar do final não ser absolutamente pessimista, a mensagem geral não é lá muito feliz. Eu poderia dizer “conformista”, mas do jeito que eu tenho pouca fé na humanidade, diria mais “realista”.

Ps. Da mesma autora também recomendo o Amora, vencedor do Jabuti de contos, que deixou meu coração quentinho por dias, e que gira em torno de relações homoafetivas.

(E se gosta da temática, além de todos os livros distópicos que posso recomendar, me lembra o mais novo sucesso Netflix, o filme Não olhe para cima. Negacionistas, idiotas, o maior sapo possível na panela aferventando).

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