Mulher de batom vermelho, sorrindo e segurando um kindle com a capa do livro Elke Mulher Maravilha

Elke, Mulher Maravilha, Chico Felitti

Título: Elke, Mulher Maravilha

Autor: Chico Felitti

Editora: Todavia

Ano: 2021

Páginas: 200 p.

Formato: Digital

Sinopse: Elke Grünupp nasceu na Alemanha em 1945. Tinha quatro anos ao desembarcar no Brasil, onde sua família se fixou no interior de Minas Gerais, para depois morar em São Paulo e no Rio Grande do Sul. A futura Mulher Maravilha da televisão começou a trabalhar muito jovem, compelida pelo rigor paterno. Alta e loira, esplendorosamente destoante das belezas locais, Elke encontrou sua vocação na adolescência, ao vencer um concurso de misses em Belo Horizonte ― de onde saiu para as passarelas das capitais da moda. A carreira meteórica de modelo, condimentada pela irreverência teatral com que vestia peças de alta-costura, abriu-lhe as portas da tv, que acabava de ganhar cores. Trabalhou como atriz e jurada nos programas do Chacrinha e de Silvio Santos, em quatro emissoras diferentes. Se tornou uma das pessoas mais famosas do Brasil. Gravou um disco e nos anos 1990 teve um programa solo, entrevistando numerosas personalidades. Sobreveio uma fase de ostracismo e empreendimentos fracassados, mas sua esfuziante joie de vivre entre as plumas, os bordados e os paetês seguiu inabalável. Até morrer, em 2016, Elke foi dionisíaca e livre como os personagens que encarnou. Estudou medicina, filosofia e letras. Nos anos 1970, revoltada com a ditadura militar, chegou a ser presa por rasgar um cartaz com fotos de procurados pelo regime. Colecionou casamentos e namoros nem sempre felizes, como a união com um fã que não tardou a se revelar violento. Originalmente concebido como um audiolivro, este perfil biográfico reúne a agilidade da reportagem e a argúcia do ensaio para retratar a santa padroeira da alegria na tv nacional e musa eterna do glamour para seus admiradores.

Opinião: Quem tem pelo menos a minha idade e via TV no início da década de 90, com certeza lembra da figura dela. Muito alta, muito maquiada e muito espalhafatosa, eu jurava que ela “não era mulher” – pensamento da criança de 6, 7, 8 anos que conhecia os “shows de transformista”, famosos lá pelas bandas onde eu morava em qualquer festa de rua (sim, acreditem). Como chamava atenção! Muito brilho, muita cor, aquelas perucas imensas, e mais ainda: aquela gargalhada absurda.

Essa visão sempre me atraiu, e não só por causa da aparência. Ela era animada. Parecia feliz. Não o tipo “feliz porque sou artista rica e tenho uma mansão no Ibirapuera”, mas feliz “sentar numa mesa de bar e falar besteira me deixa feliz”. Mas obviamente eu só entendi que era essa minha impressão quando pude olhar pra trás, anos depois de seu auge, e processar o sentimento.

Fonte da imagem: Memórias cinematográficas

Elke nasceu em outro país, mas era meio alienígena em qualquer parte do globo. Não me entendam mal, não era no mau sentido. Mas alguém ser “livre”, especialmente esse alguém sendo uma mulher, já é difícil hoje, imagina naquela época! Elke namorou muito, viajou muito, escolheu ser autêntica. Escolheu não ter filhos, escolheu não casar de papel passado (uma única vez). Ela construía uma versão dela que ela queria ser, muitos não sabiam se o que falava do passado e das suas versões para certos fatos era verdade ou não. Mas e daí? Ela definitivamente viveu a versão que ela quis.

Não que a vida tenha sido fácil. Teve falência, uma passagem rápida pelo DOPS durante a ditadura, relacionamento abusivo, períodos nebulosos sobre situações tão nebulosas quanto. Mas olha, eu não posso dar certeza, mas acho (ACHO) que pode não ter sido fácil, mas em grande parte foi feliz; como são felizes as pessoas autênticas, como são felizes os que entendem a dor e o prazer de ser quem se é.

Os capítulos do livro são anos de vida, começando em 1945, passando por sua morte em 2016 e indo até alguns comentários sobre seu espólio em 2019. Os excertos de comentários e frases dos amigos são uma delícia, alguns causos, as bagunças…

O autor, Chico, pensou em escrever sobre a vida de Elke para seu trabalho de conclusão de curso, mas foi dissuadido por um professor (muito babaca e elitista, na minha opinião) – ainda bem que guardou as anotações, que viraram esse livro. Entre (muitas, e digo muitas) visitas à mesas de bar, ele conversou com Elke e trouxe várias pérolas de seus pensamentos; e o trabalho investigativo e as informações complementares ficaram excelentes.

Recomendo. A leitura é rápida e é uma homenagem a esse monumento que foi (é) a Elke (a Paulla de oito anos que ainda vive em mim leu com os olhos brilhando).

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